Franck dá arrancada para a vitória

Mineiramente, correndo pelas beiradas, fundista tira o ouro da Guatemala a 2,5 km da linha de chegada da maratona

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2030 | 00h00

O mineiro Franck Caldeira garantiu o título pan-americano da mesma maneira que conquistou a vaga nos Jogos do Rio. Mineiramente, correndo pelas beiradas. O atleta, de 24 anos, só participou da competição internacional após a desistência de Marilson Gomes dos Santos, que decidiu correr as provas de pista. Chegou para a disputa à sombra de Vanderlei Cordeiro de Lima, medalha de bronze em Atenas/2004. Mas, sorrateiramente, garantiu o ouro quando deu o bote no guatemalteco Amado Garcia, líder absoluto da prova, faltando apenas 2,5 km para a linha de chegada. Fez o melhor tempo da carreira (2h14min03) e ainda chegou 40 metros à frente do rival, que completou os 42.195 metros em 2h14min27.''''Durante a prova, a gente tem reservas, fica preparado para o que der e vier'''', afirmou. ''''Acho que conseguiria fazer uma disputa no final, se precisasse, porque tinha perna sobrando'''', comparou. ''''Foi uma prova bem estudada, com adversários difíceis, que poderiam surpreender - o Vanderlei, os mexicanos, que têm chegada muito forte. Foi isso que me fez vencer'''', admitiu o fundista, natural de Sete Lagoas, a 62 quilômetros de Belo Horizonte.Franck só não contava com um rival bem íntimo: o tênis, que lhe provocou bolha no pé esquerdo. A dor do pé sangrando foi um problema para o campeão, que completou a prova em boas condições físicas, mas mancando muito. ''''O tênis chegou em cima da hora e não tive tempo de amaciá-lo'''', lamentou. ''''Foi complicado. A Nike (sua patrocinadora) não me mandou um tênis internacional, com material melhor, e os detalhes acabaram me machucando. Tive de superar a dor.''''Franck contribuiu para o fim do mito de que maratona é prova para atletas mais velhos. Ele era o mais jovem dentre os 15 participantes e espera ajudar a mudar essa mentalidade. ''''Na verdade, essa história só existe no Brasil'''', disse. ''''No Japão, atletas de 20 e poucos anos fazem tempos ótimos, de 2h10'''', lembrou. ''''Isso acontece também com quenianos e etíopes. Aqui, abro caminho à força, porque só eu, tão novo, corro maratonas.''''Franck admitiu que deixou de competir nas pistas por questões financeiras. ''''Só assim consigo viver do atletismo, porque não há grande recompensa para quem corre em pista'''', lamentou. ''''O Marilson, se tivesse um apoio maior, poderia ser recordista mundial.''''A juventude foi um ponto favorável a Franck. Com boa estratégia na corrida, não se desesperou quando Amado Garcia e seu compatriota, Alfredo Arevalo, saíram do pelotão principal, antes da metade do percurso. Ambos começaram a se distanciar a partir do km 16, com Amado liderando até o km 39. ''''No km 28, as coisas começaram a mudar. Ele (Amado) abriu distância e pensei: ''''Tenho de começar a sair agora.'''' Foi o que fiz. Tentei encostar rápido, com a vantagem de ser mais veloz e mais jovem.''''Foi uma surpresa para Franck disputar a ponta com guatemalteco. Imaginava que a briga pelo título seria com Vanderlei Cordeiro de Lima, que acabou deixando a corrida entre o km 37 e o 38, contundido. ''''Sou um atleta jovem, crescendo, buscando resultados, e me sentia incomodado com a presença dele. Meus rivais eram o Vanderlei e os 42 quilômetros.''''O fim da prova não poderia ser mais emocionante. Franck abriu distância do pelotão e foi encostando no guatemalteco, àquela altura considerado uma das maiores zebras do Pan do Rio. Já mostrando sinais de cansaço, Amado não esboçou reação. Até porque ficou felicíssimo com a prata garantida e saiu da maratona festejado pelos compatriotas. ''''Não estou frustrado. Gosto do risco, de sentir medo. Na minha última maratona, fiz a mesma coisa: saí no km 25 e perdi de um africano nos últimos 300 m'''', explicou Amado, sobre a tática camicase que quase deu certo.Antes do Pan, Franck treinou um mês em Cochabamba, na Bolívia, a 2.600 m de altitude. Nesse período, trabalhou resistência e força muscular. Tudo para não pensar em desistir da maratona entre os km 35 e 38, os mais críticos, segundo ele. Agora, disputará provas mais curtas no Brasil e também defenderá o título da Corrida de São Silvestre, que venceu em 2006. Após conquistar vaga no Pan com a ajuda de Marilson, espera obter índice para a Olimpíada (2h12min) em uma corrida na Itália, no início de 2008. Dessa vez, provavelmente, sem a ajuda de ninguém.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.