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Antero Greco
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Fregueses de Dunga

Desde a passagem anterior pela seleção, Dunga aprendeu que, se a barra pesar, nada melhor do que enfrentar a Argentina para tudo voltar ao normal. O técnico se deu bem em vários duelos com os vizinhos, entre 2006 e 2010, o que ajudou a firmar o conceito dele no comando do Brasil. A maré mansa manteve-se, desta vez com 2 a 0 em Pequim, no Superclássico das Américas, nome pomposo que deram ao confronto entre os dois gigantes para arrecadar grana alta.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h01

A versão atualizada da amarelinha, após o baque no Mundial em casa, não tem ainda muito requinte, nem segredos na manga. A equação básica indica semelhança com as anteriores - de Mano e Felipão: bola para Neymar na tentativa de que ele resolva. E o capitão teve três boas oportunidades para marcar, sem aproveitar.

Fora isso, o time mostrou o mérito de fechar-se, de caprichar na marcação e atrair a Argentina. Para aproveitar os contragolpes, que deram certo. Esquema usual, nada rebuscado, nenhuma revolução tática, feijão com arroz que satisfez o paladar do treinador e que, em diversos episódios, dará certo, como ontem. Se a justificativa para a escolha for a de começo de trabalho, em que resultados importam para afagar a autoestima geral, vá lá. Se isso se transformar em opção definitiva, podemos esperar mais do mesmo, com sucessos pontuais, sem mudança radical.

Neymar como referência não significa nenhum pecado. Ótimo e correto apostar no talento do craque - como os argentinos fazem com Messi e Di María. Melhor se houver participação de outros jogadores. E, no confronto no Ninho do Pássaro, isso ocorreu. Tardelli movimentou-se bem, abriu espaços e, acima de tudo, soube colocar-se na área. Não por acaso marcou os gols livre, livre, leve e solto, sem sombras.

Não foi só. William também arrancou bem, em inúmeros lances pela direita, e chegou a finalizar. Oscar cumpriu papel operário pelo lado esquerdo. Fez lembrar Zinho na Copa de 1994. Aparece pouco para a torcida, mas fecha espaço, cumpre à risca o que o chefe manda. Teve importância estratégica. A defesa não complicou e Jefferson ganhou moral ao defender pênalti - mal apontado - chutado por Messi.

Dunga venceu os três primeiros jogos, todos longe dos lindos estádios construídos aqui para a Copa de 14. Os sucessos lhe dão mais calma? Nem tanto, nem tanto. Quase no fim, veio à tona o lado barraqueiro, ao bater boca com auxiliar de Tata Martino e fazer gestos estranhos com a mão no nariz... Tosco, é verdade, mas chega a ser engraçado, atitude de garoto que chama outro pra brigar. Não se pode dizer que Dunga não seja ao menos autêntico.

Tropeço alvinegro. O Corinthians não tem grandes pretensões no que resta de Brasileiro. Título, nem pensar, mesmo depois da vitória sobre o líder Cruzeiro, no Mineirão. Vaga na Libertadores é objetivo viável. Só que pode tirar o cavalo da chuva, se continuar com os vacilos em desafios aparentemente menos árduos. Para trocar em miúdos: não adianta nada ganhar de quem está na parte de cima e perder para a turma do sufoco.

Foi o que se viu ontem, no início da noite, no estádio de Manaus. A rapaziada de Mano Menezes enfrentou o desesperado e desengonçado Botafogo, era favorita e volta para casa com 1 a 0 nas costas. Pior, sem jogar grande coisa. O Corinthians pressionou, sobretudo no segundo tempo, mas na base da vontade e do suor e menos na qualidade. E, nos lances melhores, topou com atuação impecável do goleiro Elton Leite.

Notável o espírito de luta dos botafoguenses. Andam numa draga danada, com salários atrasados, dispensas, pressão da torcida, a lanterna nas mãos, ficaram com um a menos (Bolatti expulso). Enfim, tudo para dar errado e redundar em nova derrota. No entanto, jogadores se desdobraram, encararam a empreitada e sentiram o gosto da reação.

A briga para fugir da queda promete ser emocionante. Já a corrida pelo título permanece em banho-maria.

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