Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Friburguense busca recomeço depois do caos

Tradicional agremiação fluminense tenta voltar à elite do futebol carioca em meio à reconstrução da região serrana do Rio

Leonardo Maia, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

No dia 12 de janeiro, a vida parou em Nova Friburgo. A cidade foi uma das mais afetadas pelas chuvas que devastaram a região serrana do Rio. Mas a enxurrada que levou 421 vidas e incontáveis bens materiais no município não varreu da comunidade a disposição para começar de novo. Passado um mês da tragédia, Nova Friburgo pouco a pouco volta à rotina e, em meio a esse cenário, um time de futebol simboliza a busca pela reconstrução.

O Friburguense Atlético Clube, tradicional clube do interior do Rio, inicia sua trajetória para voltar à Série A do futebol carioca, hoje, contra a Portuguesa, às 17 horas, no Estádio Eduardo Guinle. Foram 12 anos seguidos na elite do Campeonato Estadual, antes da queda no ano passado. O que jogadores, comissão técnica e dirigentes não contavam quando planejavam a temporada - que já seria de luta - é que a caminhada do Tricolor serrano viesse a ser ainda mais difícil por um desastre natural de proporções dantescas.

A pré-temporada foi afetada por quase duas semanas. Treinos suspensos, pois o estádio se tornou base área para helicópteros e equipes de resgate. E jogadores mentalmente dispersos, mais preocupados em reorganizar a rotina do que buscar concentração para o trabalho dentro de campo.

"Graças a Deus não perdi nenhum parente, mas perdi muitos amigos de infância e pessoas próximas. Muda tudo. Ficaram na minha casa 15 familiares que perderam ou tiveram de abandonar as suas casas", conta o volante Bidu, de 30 anos, titular da equipe. Ele vê como grande dificuldade esquecer o ocorrido. "É impossível. A tragédia sempre volta a nossa mente."

O jeito, por isso, é transformar o negativo em positivo e tentar extrair da experiência traumática o combustível para que a equipe dê algo a mais no campeonato. "Temos de usar o desastre como estímulo para a superação. É a oportunidade de devolver um pouco de alegria à cidade", ressalta o técnico Edson Souza, de 49 anos, que teve longa carreira como jogador e atuou em grandes equipes como Vasco, Cruzeiro e Fluminense, no qual fez parte do elenco que conquistou o Brasileiro de 1984.

Edson, porém, sabe que é difícil a equipe iniciar o jogo de hoje totalmente concentrada no futebol. Ele mesmo não esquece a cena, vista da janela do hotel onde mora, de pessoas sendo carregadas pela avalanche de água, pela lama e pelos destroços.

Pouca mobilização. Outro obstáculo será mobilizar a torcida local a ir aos jogos. Naturalmente, quando se dá uma catástrofe dessa magnitude a preocupação e a atenção de todos se voltam para situações emergenciais e a busca pela sobrevivência. Futebol e outras formas de entretenimento não estão no topo da lista de prioridades. Mas à medida que a vida retoma seu rumo, mesmo com grandes feridas expostas por todos os lugares, o esporte retoma com força seu lugar no pensamento da população.

"As pessoas nos abordam nas ruas e perguntam como o time está se preparando, se vamos conseguir subir. Dão força para a gente. Mais do que nunca, temos a responsabilidade de subir", diz Bidu, ele mesmo um filho da terra. "Todo mundo fala de futebol. É uma forma de amenizar a dor", pondera Edson.

Mesmo que os torcedores se esforcem para apoiar a equipe, certamente o empresariado local, que patrocina o clube, não terá a condição de dedicar o mesmo suporte. Muitos negócios foram afetados e os recursos serão voltados para o trabalho de recuperação a áreas mais importantes.

Folha salarial. José Siqueira, gerente de futebol, prevê dificuldades para arcar com os custos da folha salarial, mesmo com a redução drástica sofrida com a queda para a Segunda Divisão. Em 2010, o custo com comissão técnica e jogadores girava na casa dos R$ 100 mil mensais. Nesta temporada, está em R$ 45 mil.

"Temos um patrocinador que cobre cerca de 40% dos nossos custos. O restante vem da negociação de atletas, recursos próprios e placas de publicidade e renda dos jogos. Certamente vamos sofrer mais nesses dois últimos aspectos. A torcida é uma incógnita. Não sei se vão se preocupar com lazer nessa hora, mas vamos fazer um trabalho de mobilização", diz o dirigente.

De qualquer maneira, com a arquibancada cheia ou vazia, certo é que o Friburguense exibirá mais do que a determinação de um time de futebol em busca de um título. Os jogadores prometem trazer no espírito o mesmo desejo de recomeço de toda uma cidade.

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