Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
O Couto Pereira, casa do Coritiba, é um dos estádios de futebol do Brasil que têm recebido partidas Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

FUTEBOL AMERICANO VAI CONQUISTANDO TERRITÓRIO NO BRASIL

Modalidade mais popular dos Estados Unidos ganha adeptos no País e audiência dos jogos da NFL na tevê brasileira é cada vez maior

Tales Azzoni, AP

06 de outubro de 2014 | 07h00

Os brasileiros, pentacampeões mundiais de futebol, começam a prestar atenção a um outro futebol, jogado com as mãos. Trata-se do futebol americano, no qual são usados capacetes e cuja prática se assemelha à do rúgbi, e não à do futebol que o Brasil está acostumado a amar. 

O esporte está ganhando cada vez mais fãs e participantes no País. O Brasil já tem duas ligas semiprofissionais bem estabelecidas e o público que acompanha a NFL (liga profissional dos Estados Unidos) pela televisão aumenta rapidamente. 

Alguns dos clubes de futebol mais tradicionais do País criaram seus próprios times de futebol americano e um deles se gaba de ter mais seguidores no Facebook do que algumas equipes da NFL. E a Nike, gigante do ramo das vestimentas esportivas, começou a vender por aqui camisetas oficiais dos times americanos, contando com um aumento no interesse por tais produtos.


Um ex-jogador da NFL que trabalha no Brasil como treinador está entusiasmado com o potencial do esporte por aqui e acredita que o futebol americano será um dia uma das modalidades mais populares do Brasil.

“O futebol americano acaba de engravidar no Brasil e logo deve dar à luz algo grandioso”, comentou Johnny Mitchell, ex-jogador dos New York Jets.

O Brasil tem até uma seleção nacional considerada competente e o nível técnico está melhorando. As partidas são disputadas nas famosas praias do Rio de Janeiro, dividindo a areia com o futebol e o futevôlei, e também em outros parques e campos esportivos do País. Alguns estádios de futebol também recebem o futebol americano.

O novo esporte não vai rivalizar com o futebol em popularidade, mas está começando a deixar sua marca. Alguns fãs dizem que deixaram de assistir a tantas partidas de futebol depois que passaram a acompanhar o futebol americano.

“Decidi cancelar a minha assinatura paga do Campeonato Brasileiro e usei o dinheiro para assinar internet de banda larga para acompanhar melhor a NFL”, disse Priscilla Santos, de 30 anos, que aprendeu a gostar do esporte por meio de uma amiga. “Eu me dei conta de que a modalidade é muito melhor organizada do que o nosso futebol. Logo fiquei encantada e agora esse é o meu esporte favorito.”

Há bem pouco tempo, era muito difícil encontrar brasileiros conhecedores do futebol americano. O esporte era praticamente exclusividade dos estrangeiros que moram no País ou dos brasileiros que já moraram nos Estados Unidos. Para os brasileiros, as regras pareciam complicadas demais e era frequente a queixa de que esse esporte é excessivamente violento. Mas, com a difusão dos canais de TV a cabo, um número cada vez maior de pessoas começou a ter acesso ao esporte. A ESPN passou a transmitir partidas da NFL no Brasil no início dos anos 90 e, nos dois últimos anos, os índices de audiência começaram a alcançar níveis significativos.

O canal transmite até seis jogos por semana e a audiência registrou aumento de 29%. Neste ano, a ESPN ficou com o primeiro lugar em audiência entre as emissoras a cabo no dia do Super Bowl (final da NFL) e, em 2013, foi líder entre os canais esportivos no segmento masculino de idade entre 18 e 24 anos com a transmissão dos jogos da NFL. O campeonato também pode ser assistido pelo canal Esporte Interativo, que diz que as partidas foram vistas por 23,8 milhões de pessoas no Brasil na temporada passada, com média de quase 900 mil espectadores por jogo.

“Ainda estamos trabalhando para ajudar o espectador a compreender algumas das regras do esporte, mas notamos que, nesta terceira temporada, já existe um número considerável de fãs muito envolvidos e entusiasmados com a NFL”, disse Fabio Medeiros, diretor de conteúdo do canal.

NA PRÁTICA

Os brasileiros também estão praticando o novo esporte. Há mais de 120 times de futebol americano no País, de acordo com a Confederação Brasileira de Futebol Americano, criada em 2012 para cuidar da promoção do esporte. A organização fala em 4,8 mil jogadores em atividade, em sua grande maioria brasileiros.

“Não há dúvida de que o esporte cresce num ritmo acelerado”, disse Daniel Stoler, diretor de assuntos internacionais da confederação. “Percebemos que o público se interessa bastante pelo esporte e nos procura.”

Os campeonatos locais têm crescido e algumas partidas são transmitidas por emissoras regionais. Mitchell, que jogou na NFL na década de 90, foi contratado como técnico do Maringá Pyros nesta temporada, logo depois de se sagrar campeão do Brasil Bowl comandando os Crocodilos de Curitiba. A chegada dele ganhou as manchetes das páginas esportivas da cidade, normalmente reservadas para as notícias do futebol.

“O próximo passo é encontrar alguém que enxergue as oportunidades econômicas do esporte e, em seguida, a popularidade da modalidade vai disparar”, disse o americano.

Mitchell afirmou que existe uma base boa e que alguns dos jogadores locais são talentosos o bastante para jogar na liga canadense ou na Arena Football League (liga de futebol americano de arena dos Estados Unidos).

“Acredito que em questão de sete a dez anos teremos jogadores do nível da NFL”, opinou ele. “Os brasileiros são grandes. Falta alguém que seja capaz de comprar todas as ligas e instalar uma única pessoa no comando, que ensine o esporte a todos os meninos do Brasil. É um país de 200 milhões de pessoas.”

Outro ex-jogador da NFL que veio ao Brasil é Nic Harris, linebacker (jogador de defesa) que jogou no Buffalo Bills em 2009 e no Carolina Panthers em 2010. Ele chegou para jogar com os Tritões de Vila Velha, campeões de uma das ligas locais em 2010 tendo disputado a final em um dos estádios mais venerados do futebol brasileiro, a Vila Belmiro.

O Santos, aliás, é um dos clubes de futebol que tentam se aproveitar da crescente popularidade do futebol americano. O mesmo fazem Flamengo, Corinthians e Vasco, que participam de campeonatos. Em 2011, os Imperadores do Fluminense ganharam um título diante de sete mil torcedores no Estádio Couto Pereira, em Curitiba.

O Corinthians Steamrollers tem mais de 1,2 milhão de fãs no Facebook, superando oito times da NFL, entre eles Cincinnati Bengals, Cleveland Browns, Arizona Cardinals e Buffalo Bills. A NFL está acompanhando tudo atentamente.

“Nunca analisamos esse caso específico, mas o Brasil deve nos trazer boas oportunidades. É um país com grande paixão pelos esportes e de infraestrutura fantástica, melhorando a cada ano que passa”, disse Mark Waller, vice-presidente de relações internacionais da NFL. “Para nós, seria extraordinário desenvolver algo aqui.”

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