Futebol bipolar

Deliciei-me nos últimos dias com explicações, considerações, análises, enfim, uma avalanche de tentativas variadas de explicar o que aconteceu em Yokohama no último domingo, quando o Santos foi goleado pelo Barcelona por 4 a 0 na final do Mundial de Clubes. Vi, li e ouvi de tudo, desde argumentos táticos, técnicos, citações a autoestima, história, mandinga... Respeito todos, mas, confesso, discordo da maioria.

WAGNER VILARON, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2011 | 03h06

O que mais chamou minha atenção em tudo isso não foi o vareio de bola sofrido pelo time brasileiro, nem mesmo o placar atípico em decisões. O que mais chamou minha atenção foi a facilidade com a qual mudamos de ideia. Ou seja, a fragilidade de nossos conceitos e convicções.

O comportamento passivo dos jogadores santistas no confronto, que mais pareciam fãs do que adversários dos espanhóis, é digno de críticas, sem dúvida. Mas bastaram 90 minutos para que o Santos, que tanto nos encantou no primeiro semestre, passasse a ser tratado como um time varzeano. Ou que Muricy Ramalho, técnico que venceu quatro dos últimos seis títulos brasileiros, ficasse resumido a um retranqueiro. Até Neymar, genial e fora de série até a semana passada, de repente virou um produto de marketing.

Parece que o estilo e força do Barcelona foram apresentados aos brasileiros nesta partida. Alto lá! O Barcelona que atropelou o Santos é o mesmo time que atropelou o Real Madrid uma semana antes, em pleno Santiago Bernabéu, ou que passeou sobre o Manchester United na final de uma tal Liga dos Campeões. Ah, este último jogo foi disputado na Inglaterra. Achar que em condições normais de temperatura e pressão o Santos poderia vencer o Barcelona é resultado da cegueira causada pela paixão futebolística ou de um longo período de vida em Plutão.

Por isso não entendo tantas reflexões surgidas a partir deste resultado no Japão. Dizer que o Barcelona evidenciou a crise pela qual passa o futebol brasileiro chega a soar engraçado. Se utilizarmos como referência o futebol demonstrado atualmente pela equipe catalã, teremos de dizer, então, que o futebol mundial está em crise. Afinal, hoje, qualquer clube é zebra diante do Barça. Sim, zebra, como foi o Santos, embora muitos preferissem o eufemismo "surpresa".

Agora todos querem que os clubes brasileiros e a seleção brasileira joguem como o Barcelona. Como se fosse apenas uma questão de querer. A miopia causada pelo passionalismo impede que se entenda que por trás da genialidade deste time está um conceito de jogo bem definido, mantido mesmo em momento de derrota.

Um belo dia, comenta-se que em 1992, a direção catalã determinou que o estilo do Barcelona, em todas as categorias, seria baseado no toque de bola. E começou ali o trabalho que resultou neste time. Portanto, caros, o Brasil não vive uma crise de futebol, o Brasil vive uma crise de conceitos.

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