Futebol dá o troco em tiranias do mundo árabe

Clubes, jogadores e técnicos são cobrados por sua posição política pró-ditaduras

Jamil Chade / CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

Em jogo, a liberdade. Das praças e ruas das grandes cidades árabes, a revolta contra ditadores chega aos campos de futebol. Na próxima sexta-feira, os campeonatos nacionais de futebol do Egito e da Tunísia vão finalmente voltar a ser disputado, depois de quase três meses de suspensão diante das manifestações populares. Mas não será uma temporada como qualquer outra. Em campo, torcedores não entrarão apenas para apoiar seus clubes, mas para promover uma reforma também no esporte, por décadas controlado por dirigentes ligados a regimes autoritários. A Fifa acompanha atentamente o processo.

Em todo o Norte da África e nos países árabes, o futebol é indiscutivelmente o esporte mais popular. Exatamente por seu poder, tanto governos como a oposição usaram o futebol para atender a seus objetivos políticos nos últimos anos.

No Egito, o ex-ditador Hosni Mubarak não poupou energia e nem dinheiro para transformar o futebol em uma distração ao público, com a ideia de que o espetáculo e eventuais conquistas reduziriam a tensão popular. Mubarak, em suas décadas no poder, inundou o esporte com seus próprios atores. Hoje, metade dos clubes da Primeira Divisão são do Estado. Dezenas de clubes de divisões inferiores ainda são de ministérios, polícia e outros grupos dentro do governo. 22 estádios foram construídos pelas Forças Armadas por todo o país.

Mas a oposição também via o futebol como um espaço de protesto. Em 2009, durante uma partida, o líder da oposição no Egito, Ayman Nour, foi saudado em um estádio com gritos da torcida mandando um recado direto ao regime: "Saia, Mubarak".

Não por acaso, quando a revolta começou a ganhar dimensões nacionais, uma das primeiras decisões de Mubarak foi a de suspender os jogos de futebol, temendo que acabassem sendo vitrines para os manifestantes.

Evitar a mobilização. O mesmo vem ocorrendo em outros países onde a situação política ainda não está resolvida. A Federação Síria de Futebol acaba de suspender todos os jogos no país. Oficialmente, a meta é a de deixar tempo para que as seleções nacionais possam se preparar. Mas com o governo sendo questionado nas ruas pela primeira vez em décadas, todo o esforço é para evitar a mobilização de pessoas. Reunir torcidas em estádios, portanto, passou a ser considerado como uma potencial ameaça ao poder do Estado.

No caso do Egito e da Tunísia, o fim do regime também significou uma revolução na estrutura do esporte. Na Fifa, a recomendação é para que haja uma restruturação completa do futebol no Egito, inclusive para permitir que as dívidas em relação aos jogadores que não recebem salários há meses sejam pagas.

A reforma ainda teria a função de desligar os clubes da estrutura do governo. Hoje, um dos problemas é a falta de uma fronteira clara entre quem era cartola e quem era do regime. Um processo aberto contra o ex-ministro do Egito Sameh Fahmy escancarou essa realidade. Fahmy criou um time do próprio setor do petróleo. O Enppi chegou à Primeira Divisão em 2002 e passou a contratar as principais estrelas do país, estendo-se também com reforços pelo continente africano. Um ano depois, outro time do setor do petróleo também chegava à cúpula do futebol.

Agora, Fahmy é acusado de ter desviado dinheiro público para os clubes. Mas o ex-ministro garante que atuou sob as ordens de Mubarak.

Represálias. Outro temor da Fifa é de que haja uma verdadeira caça às bruxas no futebol do Egito. Isso porque muitos dos cartolas, jogadores e técnicos simplesmente ficaram em silêncio quando os manifestantes tomaram as ruas do Cairo. Agora, são acusados de terem apoiado o regime e as principais torcidas exigem que sejam expulsos dos clubes.

Por telefone, Tarik Hussein, torcedor do Al Zamalek, confirmou ao Estado que a meta das torcidas agora é reconquistar o futebol para o povo. "Para isso, precisamos nos desfazer daqueles que usavam o esporte como instrumento para nos calar", disse.

O próprio presidente da Federação de Futebol do Egito está sendo processado por corrupção. No time do Zamalek, três conselheiros já caíram por terem declarado apoio à Mubarak durante os dias de revolta. Até o técnico da seleção nacional, Hassan Shehata, está com seu posto ameaçado. Enquanto milhares de pessoas estavam protestando na Praça Tahrir, ele insistia em elogiar Mubarak.

Protesto. Na semana passada, em um amistoso entre dois clubes do Cairo, as torcidas organizadas não perdoaram seus próprios jogadores por seu posicionamento político durante a queda da ditadura. Em um cartaz aberto nas arquibancadas, os atletas puderam ler uma mensagem dura por parte dos torcedores: "Nós seguimos vocês em todos os lugares. Mas nos momentos difíceis, não encontramos vocês".

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