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Antero Greco
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Futebol de Brocadores

O que será que, neste momento, passa pela cabeça de Hernane, o Brocador? Sabe de quem falo? Do centroavante, do artilheiro do Flamengo na temporada de 2013. Durante a semana, frequentou as manchetes esportivas por causa da possibilidade de transferir-se para um time chinês, numa transação que renderia em torno de R$ 17 milhões para o clube carioca, junto com uma grana boa para ele. O negócio emperrou porque não chegaram em tempo os documentos bancários de praxe para esse tipo de situação e que garantem pagamento. Até segunda ordem, ele não sai.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 02h02

Hernane ficou feliz da vida duas vezes: na primeira, por ter sido descoberto pelo mercado externo. Vá lá que atuar na China não seja grande coisa, mas rende um dinheiro de respeito. Na segunda, por perceber o carinho do torcedor e por não se ver obrigado a sair de casa e aventurar-se pelo mundo sem saber que tipo de percalços enfrentará.

Eis um dilema sério. Muitos são os jovens que alcançam alguma notoriedade no futebol e, mal saídos das fraldas, já batem asas. As razões para a partida são as costumeiras: a pressão de empresários, de investidores, dos donos dos direitos econômicos, do clube ao qual está atrelado e, até, as deles próprios. Os envolvidos veem oportunidade de engordar as respectivas contas-correntes - nem sempre há nova chance.

Além disso, contam com uma perspectiva recorrente, a de fazer marcha à ré se a experiência for furada. A gente já perdeu a conta das histórias de brasileiros - sejam craques, promessas ou pernas de pau - que se mandaram no primeiro aceno de dólares, euros ou qualquer outra moeda forte e, passados meses, talvez um ano, estão de volta. Com episódios bons ou ruins para contar, com os bolsos cheios ou com calotes.

Defendo a permanência de talentos, por considerar que o fluxo migratório incessante faz com que as equipes locais percam referências. Se o rapaz for bom, deve-se fazer de tudo para que não dê as costas para as origens antes da maturidade. Por isso, aplaudi o contorcionismo do Santos para segurar Neymar, em 2011. Mal sabia que o desfecho teria desdobramentos traumáticos. Ainda assim, valeu a tentativa.

Nem todos são Neymar, que provavelmente passará a carreira a receber convites milionários e vai para onde quiser, num estalar de dedos. Ele faz parte de categoria especial, nem conta como parâmetro. Portanto, há casos em que o jovem precisa embarcar no trem da bola. Claro, com o mínimo de segurança, para não quebrar a cara.

Coloco o Brocador nessa turma. Não se trata de menino - em abril festejará 28 anos -, nem astro de primeira grandeza. A carreira foi vaga, perambulou por diversos times menores até parar na Gávea. No Fla, teve realce em 2013, ao entrar aos poucos e, sobretudo num período confuso, com troca de comando e crise. Sem alarde, fez gols e mais gols. Era visto como folclórico; virou ídolo.

Há quem defenda a convocação para a seleção, com o argumento de que sabe fazer gols. E sabe mesmo, aí está uma grande qualidade. Mas, salvo engano, Hernane pertence à linhagem dos cometas, aqueles jogadores que aparecem, brilham intensa e fugazmente, para depois retomarem a viagem discreta pelo espaço. Vive um período excepcional - talvez, daí, o entusiasmo dos que o rodeiam com a proposta asiática.

Ao mesmo tempo, não há por que criticar a permanência. Fez bem o Fla ao não abrir mão de um profissional sem a certeza de que receberia o combinado. E, mais do que isso, como deve estar massageado e satisfeito o ego do Brocador, ao ver a multidão a gritar o nome dele no Maracanã, anteontem, depois de marcar contra o Emelec, pela Libertadores.

Escrevi, dias atrás, que ilusão conta para levarmos a vida de forma satisfatória. O Brocador vive os instantes de glória e luz - e que direito temos de estragar-lhe a alegria? Sei que, em tempos idos, seria só estrelinha numa constelação rubro-negra. Essa é outra discussão: a realidade mostra que hoje nossos campos estão repletos de Brocadores.

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