Futebol e vôlei: esperança

A seleção feminina de futebol jogou bem ontem contra a Alemanha, principalmente no segundo tempo, com Marta e, mais ainda, Cristiane brilhando. Começou sentindo a marcação das alemãs, mais fortes, e novamente a zaga fez lambanças. Uma delas Prinz aproveitou. Mas o Brasil conseguiu o empate ainda no primeiro tempo e voltou para o segundo usando o que tem de melhor: o toque de bola objetivo e os recursos técnicos. Será triste se novamente ficar com a medalha de prata, mas o que ela fez até aqui merece muito aplauso.Depois de um fim de semana cheio de quedas e decepções, além da eliminação de Fabiana Murer na segunda, a vitória no futebol feminino mostrou que a campanha do Brasil nesta Olimpíada, graças aos esportes coletivos, pode não ficar tão medíocre quanto está até o momento. O símbolo maior da frustração foi a expressão de Diego Hypólito quando se desequilibrou ao final de sua série no solo. Ninguém pode dizer o que faltou - concentração, seriedade, treino? -, mas o fato é que ele não contava com a falha. Daí a dizer que os brasileiros não estão culturalmente preparados para grandes pressões, como se houvesse um impedimento congênito na psique nacional, vai uma distância que não percorro.O Brasil tem agora um ouro e cinco bronzes. Na Olimpíada de Atenas, foram cinco ouros, duas pratas e três bronzes. Jadel Gregório, Maurren Maggi e Rodrigo Pessoa têm chances de medalha, assim como as duplas do hipismo e do vôlei de praia. Mais esperança tem sido suscitada pelos dois times de futebol e pelos dois de vôlei. Ou seja, há possibilidade de ganhar mais umas dez medalhas, quem sabe metade delas de ouro; portanto, de ao menos igualar os cinco ouros e de ultrapassar o total de dez medalhas de 2004. Será que dá?Bom mesmo seria saber que o Brasil avançou, não que está lutando para empatar consigo mesmo; e em maior número de modalidades, não nas mesmas de sempre. Assim é que se deve pensar no mundo esportivo: planejando melhoras consistentes, não torcendo para que esses abnegados não errem na hora H. Existe descompasso muito grande entre a auto-imagem esportiva que o Brasil faz e o que realmente produz. Se superar o resultado de quatro anos atrás, o Comitê Olímpico vai fazer festa. A realidade é que há muito a fazer para que os esportes recebam a devida atenção, para que deixem de viver de talentos esporádicos. Só há certa continuidade no futebol e no vôlei, não tipicamente olímpicos. Melhor ganhar com eles do que não ganhar quase nada relevante.E olhe que o futebol - única referência que os chineses possuem a respeito do Brasil - ainda nem obteve seu ouro. Torço para que essa hora chegue agora. O jogo contra a Argentina hoje promete, com Ronaldinho e Diego de um lado, Messi e Riquelme do outro, além de muita vontade comum de vencer traumas do passado olímpico. O que a seleção tem de mostrar é mais futebol do que mostrou até aqui. Talvez, numa inversão de papéis histórica, possa se inspirar na seleção de Marta e Cristiane, tudo menos "blasé". Que ninguém se omita.

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