Capítulo 08

Futebol feminino contra o machismo. Ou por que a política não deve limitar a mulher no esporte

Seleção que estreia na Copa da França ainda batalha para superar os efeitos de uma canetada de Getúlio, que proibiu os times e condenou as jogadoras à marginalidade por quase quatro décadas

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2019 | 19h56

Com exatas 34 palavras, no finalzinho do último capítulo do decreto-lei 3.199, Getúlio Vargas e seu Estado Novo deram início a um ciclo que condenou o futebol feminino do Brasil a quase quatro décadas de proibição e marginalidade. “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”, dizia o texto, publicado em 1941.

Em meio a uma guerra mundial e a um período de grandes turbulências políticas no Brasil, as mencionadas instruções específicas só vieram em 1965, já na ditadura e quando quase ninguém imaginava que seriam lembradas. O futebol feminino foi textualmente proibido. Não importava a modalidade: campo, salão ou praia. Foram alvo do mesmo golpe os esportes de combate, descritos como “lutas de qualquer natureza”, além de polo, polo aquático, rúgbi, halterofilismo e beisebol.

Mas o que eram as tais “condições de sua natureza” para além de machismo puro e simples?  Deveriam os políticos determinar a natureza da mulher e delimitar quais esportes elas deveriam ou não praticar?

A proibição sempre foi um capítulo meio esquecido na história do futebol brasileiro. Um assunto discutido apenas pelos muito fãs do esporte, por pesquisadores e pelas mulheres que sofreram na pele seus efeitos. Esse regaste tem sido feito desde as semanas que antecederam o início da Copa do Mundo na França, nesta sexta-feira, dia 7 de junho.

Essa história é contada tanto em reportagens quanto na exposição Contra-Ataque! As Mulheres do Futebol, que pode ser visitada até 20 de outubro no Museu do Futebol, em São Paulo. Nome mais do que adequado. Força e resistência, características de um lance contra-ataque, poderiam facilmente descrever a história das mulheres no esporte.

Até porque a revogação, em 1979, da malfadada lei criada por Getúlio nem de longe significou incentivo oficial e recursos financeiros para que as mulheres jogassem futebol. Acostumadas a nunca desistir – mesmo na época da proibição, times não-oficiais se formaram em várias cidades brasileiras -, elas continuaram jogando. Por amor ao futebol. Salário? Nem pensar.

A zagueira Elane, que participou da primeira partida da Seleção em um torneio da  Fifa, em 1988, diz que conseguir ajuda para alimentação já era motivo de alegria para as atletas. Em geral, só recebiam dos clubes apoio para transporte.

Já muito poderosa, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que garantia status profissional ao time masculino, muito pouco ou em nada contribuía para melhorar a situação da seleção feminina. Nem algo básico, como uniforme próprio, o grupo tinha para usar.

Primeira camisa 10 da Seleção em uma Copa do Mundo, Sissi passou por todo o ciclo de preconceito e machismo desde a infância, quando tirava a cabeça de suas bonecas para usar como bola e só conseguia jogar futebol com os meninos na condição de “bobinho”. Ela foi uma das estrelas do grupo no torneio experimental de 1988 na China e também na primeira Copa, três anos depois, no mesmo país.  

Sissi descarta o rótulo de ter sido a  “Marta antes da Marta”. Mas é certo que o futebol feminino deve muito às lutas dessa geração pioneira, como você pode ver nesta mesa redonda produzida pelo site Capitu. A Copa da França já é histórica em vários sentidos. Pela primeira vez, todos os jogos da Seleção serão transmitidos pela TV aberta, na Globo e na Bandeirantes. E o canal fechado SportTV vai passar a competição inteira.

O interesse comercial é grande, com grandes anunciantes globais. E o prêmio total que será pago às seleções dobrou em relação ao da Copa do Canadá, em 2015, chegando a US$ 30 milhões (R$ 117,7 milhões). Está igual à premiação da Copa da Rússia? Não mesmo. As seleções masculinas receberam da Federação Internacional de Futebol (Fifa) US$ 400 milhões, 13 vezes mais. Mesmo eliminado nas quartas de final, o Brasil ganhou US$ 16 milhões por sua participação no ano passado.

O futebol também é um esportes mais desiguais em termos de quantidade de atletas em olimpíadas. Mesmo nos Jogos de Tóquio, em 2020, que prometem ser os mais femininos de todos os tempos, só há quatro modalidades com pior proporção entre homens e mulheres: luta greco-romana, que só tem disputas masculinas, boxe, ciclismo de estrada e beisebol/softbol. 

O Comitê Olímpico Internacional (COI) remanejou vagas em 15 modalidades para dar lugar a mulheres e ficar mais perto do objetivo de superar os 48% de participação feminina no Japão. Outra medida foi definir a mesma quantidade de vagas por sexo em cinco das seis novas modalidades olímpicas. Caratê, basquete 3×3, escalada, skate e surfe terão igual número de homens e mulheres. A única diferença será beisebol/softbol - enquanto 144 homens participarão dos jogos de beisebol, 96 mulheres estarão no softbol.

A delegação brasileira terá mulheres entre as esperanças de medalha tanto nas modalidades tradicionais quanto nas novas. Inclusive nas tais “lutas de qualquer natureza”, também alvos da proibição política por serem “incompatíveis” com a condição feminina.

A peso leve Beatriz Ferreira vem sendo apontada como principal promessa brasileira no boxe, a modalidade com a maior disparidade entre homens e mulheres: 206 contra 80. No judô, uma das esperanças é Beatriz Souza, na categoria peso pesado.  

Judô, boxe e futebol são incompatíveis com a tal “natureza feminina”? A Copa da França, que começou hoje, e os Jogos de Tóquio, no ano que vem, tornam essa ideia risível.  Aliás, o que é natureza feminina para além do machismo e do preconceito?

Neste momento, discute-se nos âmbitos esportivo e  médico a participação de mulheres trans em competições nacionais e internacionais. No centro da questão está verificar se as atletas trans, mesmo fazendo tratamento para manter baixos seus níveis de testosterna, teriam vantagens sobre as mulheres cis, que se identificam com seu sexo biológico.

Com permissão para atuar na Superliga feminina de vôlei desde 2017, a atacante Tiffany Abreu, do Sesi-Bauru, se viu envolvida em uma recente polêmica com o técnico Bernardinho, do Sesc-RJ. Após a jogadora marcar mais um ponto na partida que acabou vencida pelo time paulista, o técnico foi flagrado dizendo que Tiffany era homem. Bernardinho depois pediu desculpas pelo comentário. 

O caso da atacante do Sesi-Bauru passou a ser citado em projetos de lei que pretendem proibir a participação de mulheres trans em torneios  femininos. Na Câmara, em Brasília, a ementa do PL 2200/2019, do deputado Pastor Sargento Isidório (AVANTE/BA) é a seguinte: “Dispõe   sobre a proibição da participação de atletas transexuais do sexo masculino (HOMENS TRAVESTIDOS OU FANTASIADOS DE MULHER) em competições do sexo feminino em todo o Território Nacional.” As maiúsculas estão no site da Câmara dos Deputados.

Há projetos semelhantes, pedindo o veto, nas Assembleias do Rio e de São Paulo.  Na Alesp, o deputado estadual Altair Moraes (PRB) diz que seu projeto tem o objetivo de  “trazer moralidade às partidas para benefício dos clubes, dos atletas e dos torcedores”.  

O tema é complexo e, claro, pode ser discutido pela sociedade para melhorar ou redefinir regras sobre dosagem de testosterona e outras questões que venham a surgir. Argumentos esportivos e científicos, nesse caso, são muito mais bem-vindos que questionamentos morais.  

Carla Miranda

Carla Miranda

Editora do Capitu

Jornalista, doutora em comunicação e mãe de duas meninas superpoderosas. Especialista em jornadas duplas ou triplas, como quase toda brasileira.

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