Futebol, negócio globalizado e bilionário

Fato de o esporte ter peso relevante na economia mundial causa euforia, mas também já é motivo de preocupação

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

A Copa da África do Sul começa em 11 de junho. Dois dias antes, a Fifa pretende encabeçar um encontro da cúpula dos dirigentes e patrocinadores de todo o mundo para avaliar um fenômeno sem precedentes: a transformação do futebol em um negócio globalizado e bilionário. Avaliações de consultorias, da Fifa e até de governos, indicam que nunca o futebol teve um peso nas economias tão relevante como atualmente. A questão que todos se colocam agora é como regular essa nova dimensão do esporte e evitar a explosão do que já se denomina de a "bolha financeira do futebol"".

A Comissão Europeia estima que o futebol movimente 2% do PIB do continente, o que o transforma em um dos maiores setores da economia. Em 2006, os níveis anuais de renda eram três vezes o volume registrado em 1996. O crescimento foi conduzido por uma estratégia de valorização das marcas dos clubes e jogadores, transmissões de partidas em todo o mundo, campanhas publicitárias globais e a criação de redes de torcedores que vão muito além do bairro. Só o Manchester United calcula ter 330 milhões de torcedores espalhados pelo planeta, quase dois "brasis"".

O resultado foi uma explosão no volume de dinheiro circulando. Na Espanha, a Liga já movimenta 1,7% do PIB. A consultoria McKinsey estima que a Bundesliga movimente por ano 5,1 bilhões, é responsável por 110 mil empregos e garante arrecadação de impostos de 1,5 bilhão por ano ao governo da Alemanha. O futebol ainda representaria 5% do PIB alemão.

No Reino Unido, a constatação é de que alguns dos clubes têm uma renda anual superior à de países inteiros. O Manchester United é a associação de futebol mais rica do mundo, com renda estimada em 1,4 bilhões em 2009. O valor é superior ao PIB de 33 países, entre eles Timor Leste, Libéria, Guiana, Eritreia, Cabo Verde ou Gâmbia.

A nova dimensão do futebol também garantiu uma nova realidade para a Fifa. "Estamos sentados hoje sobre US$ 1 bilhão"", afirmou há poucos dias o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, em relação ao fundo controlado pela entidade.

Bolha. Mas, ao fazer parte da economia globalizada, o futebol também descobriu que está vulnerável aos choques e ameaças do sistema internacional. Entre os 20 clubes mais ricos do planeta, a constatação da revista Forbes é de que a crise econômica mundial afetou quase 10% de suas rendas em 2009.

Na Espanha, o sindicato de jogadores ameaçou entrar em greve diante dos atrasos seguidos no pagamento de salários. Segundo a Uefa, o temor é de que parte da expansão financeira do futebol nos últimos anos tenha sido financiada de uma forma pouco responsável. Ou seja, o risco de um colapso é considerável.

Sem crédito, vários clubes na Espanha decretaram falência nos últimos anos e alguns na Inglaterra estão à venda. A Uefa diz que mais de 52% dos clubes estão endividados. 20% deles em estado crítico.

Atividades criminosas. Outra constatação da Interpol e do conceituado Grupo de Ação Financeira da OCDE é de que o futebol se transformou em um dos palcos preferidos para a corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal no mundo. "Os clubes de futebol são vistos por criminosos como veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro"", alertaram os investigadores, em um documento publicado no início do ano em Paris.

A facilidade no uso do futebol para aplicar crimes financeiros seria resultado de quatro fatores: a falta de profissionalismo em muitos clubes, o acesso de qualquer agente à administração do futebol, estruturas complexas de comando e total internacionalização do esporte.

Hoje, o mecanismo mais comum é o de usar o futebol para integrar no sistema financeiro dinheiro de origem duvidosa e mesmo de corrupção. "Precisamos avaliar qual é a direção que o futebol está tomando"", entende o presidente da Fifa, Joseph Blatter.

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