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Antero Greco
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Futebol padrão Brasil

Padrão Fifa virou slogan popular por aqui, semanas atrás, nas manifestações que agitaram o país durante a disputa da Copa das Confederações. As pessoas que foram às ruas pedir melhores condições em saúde, educação e segurança se basearam no rigoroso controle de qualidade da entidade que manda no mundo da bola. O nível de exigência da turma de Joseph Blatter e Jérôme Valcke, no que se refere ao futebol, tornou-se parâmetro para as cobranças às autoridades. No que o povo fez muito bem.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2013 | 02h07

O torneio preparatório para o Mundial passou, a seleção levantou o caneco, meia dúzia de praças esportivas entraram em ação, a Fifa recolheu velas e zarpou para a Suíça. Só desembarca de volta, com tudo, no final do ano, para o sorteio das chaves da Copa-14. Fora isso, haverá visitas de praxe, para conferir se os trabalhos estão nos eixos, se tudo segue o figurino, além de ajustes, reuniões e almoços. Agenda.

Bastou os engomados dirigentes internacionais pisarem no avião que os levou para a Europa e a realidade despencou sobre nós. Retomamos a rotina de improvisos, de entra e sai de jogadores e técnicos, de estádios com públicos risíveis e problemas eternos, embora com roupagem moderninha. Ou seja, ressurgiu o futebol padrão Brasil.

Caso emblemático está no pedido de demissão de Paulo Autuori, desde ontem oficialmente fora do Vasco e favorito na bolsa de apostas do São Paulo. O técnico cantou a pedra de que iria largar o barco já na sexta-feira, depois de receber a notícia de que a diretoria não tinha zerado atrasos nos salários do elenco. Por coincidência, no mesmo dia se confirmava, no Morumbi, a dispensa de Ney Franco e se falava em Autuori como um dos candidatos à sucessão, ao lado de Muricy, preferido mais por torcedores e menos por cartolas.

Autuori levou a situação em banho maria até ontem, após mandar inúmeros recados, para ambos os lados, de que ia pegar as tralhas em São Januário. Injusto negar-lhe o direito de romper contrato com um mau patrão. Nenhum trabalhador precisa conviver com a angústia de não ter o dinheiro pingado na conta na data certa. É obrigação do empregador honrar o compromisso, ou liberar o profissional.

Só ficou um tanto chato o arrastar do desfecho. Se Autuori havia dito que não toleraria outros calotes, o correto seria despedir-se no domingo mesmo, assim que terminou o jogo com o Internacional. A demora deixou no ar a impressão, talvez falsa mas verossímil, de que estava à espera de convite real e irrefutável do São Paulo antes de abandonar a empreitada iniciada três meses atrás. O gesto de coragem plena seria o de mandar tudo pro ar, independentemente de sondagens do mercado.

O episódio mostrou, pela milionésima vez, a precariedade da relação entre professores e clubes. Um e outro pouco se respeitam, com rupturas em geral traumatizantes. Também salta aos olhos a falta de planejamento. Houve pausa de quase um mês, encaradas pela maioria como férias de meio de ano. Todos se recolheram, suspenderam expedientes e adiaram mudanças para a retomada do calendário. Daí houve a enxurrada de até logo, passar bem para técnicos. Grêmio, São Paulo, Atlético-PR se mexeram só agora. Por que não aproveitaram a folga para corrigir a rota?

O público anda retraído. Com exceção de Fla x Coritiba, em Brasília, houve festival de arquibancadas vazias. Quer dizer, ninguém se interessa em cativar o cliente. A propósito de confusão: o lindo "Mané Garrincha" concentrou o que há de pior por aqui em desorganização, com desrespeito aos lugares marcados, má acomodação para imprensa, dificuldade nos acessos, gramado ruim. Sem maquiagem, mostra rosto feio.

Hora de o Galo cantar. O Atlético-MG fez bela campanha na Libertadores até topar com o Newell's e perder por 2 a 0, na semana passada. Chegou o momento de Ronaldinho e colegas resgatarem hoje o encanto do time que mostra, no momento, o estilo mais atraente no País. É possível.

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