Futebol resgata jovens da guerra

Futebol resgata jovens da guerra

Brasileira comanda ação humanitária que usa o esporte para afastar crianças dos conflitos na Caxemira

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Uma ação humanitária na Caxemira, uma das regiões mais perigosas do mundo, procura afastar crianças do conflito que há mais de cinco décadas castiga a população. E a liderança do projeto fala português. Trata-se da brasileira Priscila de Troia, cuja estratégia é simples e objetiva: incentivar os garotos a ter um futuro melhor por meio do futebol. Amanhã, dois jovens da Caxemira desembarcam no Brasil para jogar pelo Marília. Ainda neste ano o filho de um rebelde considerado terrorista pelo governo da India poderá ser recebido pelo Santos.

A saída dos garotos da região se transformou em um debate político nacional, com repercussões que extrapolaram o noticiário esportivo. A iniciativa que despertou o interesse de toda a Índia é da International Sports Academy Trust (ISAT), entidade criada por Priscila e seu marido, o argentino Juan Marcos Troia.

O projeto nasceu em 2006, depois que o casal, que já vivia na Índia, passou pela região da Caxemira. "Vimos que os meninos da região eram loucos por futebol, ao contrário do resto da Índia, onde o cricket predomina como a modalidade favorita", explicou a brasileira.

A Caxemira é considerada uma das regiões mais violentas do mundo. A guerra entre Índia e Paquistão já deixou milhares de vítimas e o local é um dos mais militarizados do planeta. Estima-se que só a Índia teria mobilizado mais de 100 mil soldados.

Priscila conta que logo percebeu que o desafio seria difícil. No primeiro mês de trabalho, Juan Marcos foi espancado por militares indianos. "A suspeita sempre é de que somos espiões ou estamos trabalhando com algum objetivo obscuro. Até hoje temos de provar todas as semanas que o que fazemos é permitir que as crianças joguem futebol e não acabem aderindo ao movimento de guerrilhas ou terroristas", afirmou.

Precaução. Na realidade, a meta dos indianos é evitar que qualquer sentimento de nacionalismo da Caxemira seja incentivado; O temor é que o movimento em prol da independência da região ganhe força por intermédio do futebol. A iniciativa de levar jogadores dali para o exterior, portanto, foi recebida inicialmente com desconfiança pelas autoridades. Os passaportes dos garotos, por exemplo, levaram mais de seis meses para serem aprovados e o governador da Caxemira foi obrigado a se envolver na questão.

Pouco a pouco, as autoridades entenderam que o objetivo era apenas o de manter as crianças nos campos e não deixar que caíssem nas mãos de rebeldes. Hoje, são cinco centros de treinamento e três times. Dois jogam na Terceira Divisão do campeonato estadual da Caxemira e um está na Segunda.

Demanda. Se os governos viam o projeto com suspeita, os garotos tinham outra percepção. "O interesse foi imediato. No primeiro ano, 400 garotos pediram para ser registrados", diz Juan Marcos. Segundo Priscila, hoje já são mil adolescentes atuando nos campos criados pelo casal. É uma das maiores iniciativas sociais da Caxemira.

Quatro jogadores brasileiros atuam na região e auxiliam no projeto. Dois são do Marília e estão emprestados. Mas a vida não é fácil. Para chegar aos campos, muitos precisam passar por zonas de conflitos entre população e militares. "Quando eles entram no gramado, esquecem do mundo e apenas querem ser grandes estrelas", completou Priscila.

Hoje, o projeto é financiado com a ajuda de patrocinadores e o governo brasileiro facilitou a emissão dos vistos aos garotos. O Itamaraty admite que a iniciativa tem contribuído para a imagem do Brasil na região.

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