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Antero Greco
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Futebol saltimbanco

O fenômeno começou a manifestar-se no ano passado, na época da Copa das Confederações. Com a desculpa de que se precisava testar estádios erguidos para aquela disputa e para o Mundial, times importantes de São Paulo e Rio fizeram apresentações itinerantes. Brasília foi o centro de convergência, ao receber Santos, Flamengo, Botafogo dentre outros. Os responsáveis pela praça esportiva combinavam um preço fixo com os clubes em troca da visita de cortesia.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2014 | 02h01

Alguém levantou a hipótese de que os convites iam além de simples ensaios para as duas grandes competições. A presença constante de equipes de massa, e com forte apelo em todo o país, seria uma forma de provar que os campos não se transformariam em elefantes brancos. Vários consumiram grana alta para saírem do chão.

Os torneios já fazem parte da história, foram um sucesso, a seleção ganhou em 2013 e levou um surra e tanto neste ano, mas as obras estão aí, imponentes, gigantescas, assustadoras. E cobram preço salgado pela manutenção. Não podem ficar inativas, com o risco de deterioração e com parcelas a pagar.

A saída volta a ser a óbvia: chamam-se times paulistas e cariocas para dar uma canja, como os músicos, para o público local. Mas, ao contrário dos artistas que tocam uns acordes de graça em encontros com amigos, a turma do futebol só aparece por cachê.

Por isso, vira e mexe a gente nota alteração na tabela do Brasileiro e mesmo da Copa do Brasil, com mandantes a vender o direito de atuar em casa em troca de uma verba que cubra despesas de locomoção, hospedagem e garanta lucro. O Bragantino fez isso, semanas atrás, com o Corinthians, ao levar para Cuiabá o jogo de ida pelas oitavas de final da Copa do Brasil. Apurou boa féria e até ganhou por 1 a 0. O Botafogo fez acerto semelhante, para Brasília (jogo com o São Paulo) e Manaus, onde disputará os clássicos com o Corinthians e o Flamengo em outubro.

Ao anunciar os acordos, a diretoria do clube carioca tratou de desculpar-se com a torcida do Rio, sob alegação de que dificuldades econômicas que enfrenta a levaram a topar o negócio. Ou seja, teve consciência de que, de certa maneira, traía princípios e a plateia principal, ao abrir mão de jogar no Maracanã, uma vez que o Engenhão continua fechado e sabe-se lá quando reabrirá. Abdicou de vantagem técnica para obter um respiro no balancete.

A CBF sinalizou, aqui e ali, a possibilidade de convencer os times a tornarem rotineira essa prática. Há quem defenda a ideia de que, ao rodarem o Brasil, se facilita aproximação com torcedores de outros Estados e se ganha mercado. No fundo, porém, é só tentativa de provar que não houve exagero ao esparramar o Mundial-14 por 12 cidades, algumas delas sabidamente com deficiência para lotar os antigos - e até modestos - estádios municipais. Quer dizer, tapa-se o sol com os grandes clubes fazendo o papel de peneira.

Como a penúria pega os desprevenidos, fica fácil seduzi-los. Ao agirem como saltimbancos podem ver o saldo bancário melhorado. Só que, a longo prazo, colherão prejuízo técnico. E podem, por tabela, causar danos esportivos para o adversário do momento e para os demais participantes dos campeonatos.

Uma hipótese: imaginemos que o Botafogo dependa de resultado positivo contra o Corinthians para fugir da degola. Em campo neutro, teoricamente perde a vantagem natural do ambiente doméstico e da pressão da torcida; fica mais frágil. O rival paulista pode aproveitar-se e, se estiver na corrida pelo título, obtém vantagem adicional. Ou não: para deslocar-se até Manaus, a turma alvinegra terá desgaste físico maior do que se jogasse no Rio. Enfim...

A questão é complicada. A luta pela sobrevivência leva a decisões nem sempre sensatas, e a perspectiva de levantar uma soma razoável pesa na hora de bater o martelo. Fica fácil, ao olhar de fora, condenar os cartolas. Ao mesmo tempo, inevitável constatar que eles contribuíram para isso. E assim roda o círculo vicioso.

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