'Ganhamos aquela copa do mundo na experiência. Foi a copa do Mané'

Velho Lobo ainda se emociona ao recordar a campanha vitoriosa, a contusão de Pelé, o show de Garrincha e a atuação extraordinária de Amarildo

O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h06

"O Brasil chegou ao Chile como favorito. Não foi como em 1958. Ninguém conhecia o Brasil, não tinha ganho nada. E quando nós fomos para o Chile fomos como campeões. Isso foi de grande importância porque praticamente nós jogamos com a mesma equipe. Jogou o Garrincha, que fez uma Copa maravilhosa. Infelizmente o Pelé se machucou. Mas nós estávamos confiantes pela vitória na Suécia e levamos a mesma equipe. Essa seleção jogou como jogou porque a condição física naquela época não era como na atualidade. Hoje é uma correria muito grande. O Nilton Santos tinha 37, o Djalma (Santos) tinha 33, o Didi por aí também, eu estava com 31. Muita gente não acreditava na seleção. Ganhamos aquela Copa na experiência.

Houve a contusão do Pelé e, claro, você perder o melhor jogador do mundo era um grande desfalque. Não tenha dúvida, (foi um baque) você perder o Pelé... Nós sabíamos que ele ia fazer muita falta. Mas o mais importante nesse caso foi o Amarildo, que o substituiu e a camisa 10 não fez falta. Nós já jogávamos juntos no Botafogo. Tinha eu, o Garrincha, o Didi e o Nilton Santos. Jogadores que ele já estava habituado a jogar. Ele não sentiu. E fez uma Copa do Chile sensacional. O Garrincha foi considerado o que ganhou a Copa, vamos dizer assim, mas o Amarildo, na substituição do Pelé, foi de grande importância, foi melhor do que todos nós esperávamos.

Começamos o primeiro jogo foi contra o México e eu tive a felicidade de fazer o primeiro gol do Brasil na Copa. Nós estávamos empatando em 0 a 0 e fiz um gol de cabeça aos 12 minutos do segundo tempo. Depois tivemos a felicidade de fazer o segundo e ganhamos a partida. Isso foi importante porque tínhamos uma equipe de mais idade. Depois tivemos a Checoslováquia, quando o Pelé se machucou. Acho que reverenciaram a contusão dele. Não vieram muito para cima da gente. E nós empatamos em 0 a 0 esse segundo jogo da Copa. E o Pelé ficou em campo, mas ele não podia... Mesmo assim ficou um atleta em cima dele, prestando atenção. Pensaram: 'Sei lá se ele está machucado mesmo.'

A grande dificuldade foi quando o Pelé se machucou. Ali deu um susto. Quando a gente viu que era virilha, a gente viu que ia ficar com 10 jogadores. Mas a Checoslováquia respeitou o futebol brasileiro, respeitou o Pelé, mesmo com ele fazendo número. Respeitaram tanto que pouco atacaram. Eles estavam satisfeitos de empatar com o Brasil. Depois nós ganhamos da Espanha de 2 a 1, que foi um jogo dos mais difíceis.

A Espanha fez 1 a 0 e nós viramos. Inclusive participei da jogada do gol do Amarildo. Fui à linha de fundo, cruzei para trás e o Amarildo fez o gol. Depois houve um pênalti, que o juiz não deu, contra o Brasil. O Nilton Santos deu um pulo para fora da área. Para nós foi excelente. Com isso nós fizemos o segundo gol.

Ganhamos depois da Inglaterra, 3 a 1. O Garrincha fez gol de tudo quanto foi jeito. Fez gol até de cabeça. Fez gol de perna esquerda. Foi a Copa do Mané. O que seria o jogo difícil, contra o Chile (4 a 2), nós saímos sempre na frente.

No final o Garrincha acabou sendo expulso por uma bobagem. O Garrincha não fazia falta em ninguém. Ele deu um peteleco em alguém e botaram ele para fora. Naquele jogo o juiz... Se fomos favorecidos contra a Espanha, contra o Chile o Yamasaki (do Peru) queria de qualquer maneira derrubar o Brasil.

O Garrincha era sempre o mesmo. Na Copa de 1958, no Botafogo, na Copa de 1962. Quem tinha que estar satisfeito éramos nós, que não tínhamos que jogar contra ele.

Chegamos à final contra a Checoslováquia de novo. Sofremos o primeiro gol e viramos a partida. O gol do Amarildo, bati o lateral e o Amarildo e bateu pela ponta-esquerda, entre a trave e o goleiro. O goleiro saiu para cortar o lance. Nós ganhamos em outra jogada do Amarildo pela ponta-esquerda. Ele fez um cruzamento para o Zito, que só escorou, deixou a bola bater na cabeça e entrar: 2 a 1. O terceiro veio de um chute do Djalma Santos, deu um balão para a área, com o sol o goleiro deixou escapulir e o Vavá fez o gol.

Foi a mesma festa que aconteceu conosco em 1958. A chegada aqui (no Rio), a chegada em São Paulo. Foi a mesma coisa. Nós já esperávamos. O povo todo na rua. A gente chegando ao Palácio do Catete. Foi sensacional a repetição. Com isso proporcionamos um carnaval mais cedo, em junho. Foi uma alegria.

O Amarildo não sentiu absolutamente nada em entrar na seleção (no lugar do Pelé). E ele se mostrou um jogador espetacular, superou tudo. A própria camisa 10, que era difícil de ser vestida, pesada, ele fez um papel que muita gente não pensava que ele fosse fazer. Aí que ele virou o "Possesso".

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