Garoto tenta se reerguer no futebol da Portuguesa

Diego, interno da Casa, passou na peneira do clube

Amanda Romanelli, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

O ônibus, modelo simples, desses usados para o transporte urbano, deixa o Estádio do Canindé - alojamento do time de juniores da Portuguesa - e segue, via Marginal Tietê, para o Centro de Treinamento da equipe, na Rodovia Ayrton Senna, todos os dias. Um dos 33 meninos da equipe, porém, faz caminho um pouco diferente. O meio de transporte é outro. O ponto de partida, também.Pelo menos três vezes por semana, Diego Lima Conceição, de 18 anos, deixa a Unidade de Internação Adoniran Barbosa, no Complexo da Vila Maria da Fundação Casa, a antiga Febem, para encontrar colegas de time e de bola. Como ainda cumpre medida socioeducativa, não pode seguir para o treino com os outros meninos. A curta viagem até o CT é feita em um carro do Governo do Estado, com o acompanhamento de dois ou três agentes. Por ironia, pouco menos de 3 km (e o rio Tietê) separam a unidade do Canindé.Diego treina na Portuguesa há quatro meses. É interno da Fundação Casa há dois anos e dois meses. Antes, já havia passado pelas categorias de base do Cruzeiro e do Guaratinguetá. "Faltou maturidade, pensar melhor nas conseqüências. Segui más amizades", diz Diego, garoto articulado, que passou para o 2º ano do ensino médio e é caso raro: apenas outros dois meninos, em todo o Estado, também jogam futebol.O técnico Edu Miranda, da equipe de juniores, é o maior incentivador, depois dos pais do garoto, Genival e Maria - assim que aprovado, Diego ganhou um par de chuteiras. Atacante, o garoto se destacou na própria unidade e foi encaminhado para um teste. Outros dois meninos da Unidade Abaeté, vizinha à Adoniran Barbosa, também foram indicados. Mas só Diego passou pela peneira que teve pelo menos 200 garotos.A persistência do menino, que não quer perder a segunda chance, deve render frutos. Diego pode ser inscrito na Copa São Paulo de Futebol Júnior, em janeiro. A Portuguesa jogará a primeira fase em Taubaté, perto da cidade de Aparecida, onde moram seus pais, e enfrentará Grêmio, Nacional/AM e a equipe da casa. "O que eu mostro é que ele deve trabalhar, ter humildade e muita determinação. Ele precisa matar não um, mas dois leões por dia", diz Edu, que garante não haver qualquer diferenciação do jogador no grupo. A expectativa é que Diego possa integrar o time de maneira mais efetiva em 2009. De acordo com Otávio Sabino do Carmo Filho, diretor da Unidade Adoniran Barbosa, o pedido de liberdade assistida já foi enviado ao Judiciário. "Ele é participativo e sempre fala da oportunidade que recebeu. Isso está no relatório enviado ao juiz e esperamos uma decisão para o fim do mês." Assim, Diego poderá treinar durante o dia e voltar à unidade para dormir.Enquanto isso, Diego vai se readaptando às pequenas coisas que estão fora dos muros. Dias desses, antes do treino da manhã, que começa às 9 horas, saboreou um oleoso pastel de carne. Levou bronca do assistente-técnico Ricardo. Mas a justificativa foi aceita. "Fazia quase três anos que eu não comia pastel."

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