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Gêmeas completam escalada dos sete picos mais altos do mundo

Nunghsi e Tashi Malik subiram o Everest, Kilimanjaro, Elbrus, Aconcágua, Carstensz Pyramid, McKinley e o Mt. Vinson Massif

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

05 de janeiro de 2015 | 17h29

 De um lado, o Nepal. Do outro, o Tibete. A lembrança da vista de 360º no topo do mundo ainda emociona as irmãs Nungshi e Tashi Malik, as primeiras gêmeas a conquistar o maior pico do mundo, segundo o Livro dos Recordes. A façanha, alcançada em maio de 2013, foi apenas o segundo dos objetivos da missão "2 for 7", a conquista dos mais altos picos dos sete continentes. No último dia 16, as indianas concluíram a empreitada ao subir o Monte Vinson Massif. Antes, elas alcançaram também o Kilimanjaro (África), Elbrus (Europa), Aconcágua (América do Sul), Carstensz Pyramid (Oceania) e o McKinley (América do Norte).

Numa breve passagem por São Paulo, antes de rumarem para o continente gelado, as gêmeas se encontraram com escaladores brasileiros, admiradores e membros da comunidade indiana no consulado do país.Elas aproveitaram para divulgar a sua causa, a luta contra o feticídio, a prática do aborto quando os pais descobrem que a criança é do sexo feminino. "No estado em que nascemos, Haryana, há uma das piores desproporções entre os gêneros. Para cada 800 mulheres, há mil homens. O que fazemos é demonstrar a grande capacidade que as mulheres têm de alcançar seus objetivos, fortalecer sua autoestima e mostrar o poder feminino. Nós conseguimos grande cobertura da mídia indiana, na televisão e no rádio, e sempre falamos sobre isso. Há muitos ativistas lutando contra o feticídio. Nós não trabalhamos com o ativismo normal, atuamos de uma forma diferente, mas é a mesma luta", diz Nungshi.



Para se lançarem em sua aventura, as irmãs, que hoje têm 22 anos, tiveram que lutar contra a resistência da própria mãe por três anos. Além de obviamente temer pela integridade física das filhas, ela enxergava outras complicações. "Ela nos dizia: 'se vocês forem viajar o mundo inteiro para subir essas montanhas, quando vão se assentar na vida? Quando terão tempo para se casar'?", recorda Tashi.

Superado o obstáculo materno, iniciou-se a empreitada. O Kilimanjaro foi escalado em fevereiro de 2012. "Foi um dos mais fáceis que escalamos. O problema maior é que o Kilimanjaro é um vulcão inativo. Você dá um passo e sente que algo está tragando o seu pé. É porque você está pisando em cinzas. Além disso, você precisa cumprir longos trekkings, oito ou nove horas todos os dias", diz Nungshi.

O melhor estava reservado para maio de 2013: o Everest. "Há muitos estereótipos sobre o quão fácil é subir o Everest, mas a verdade é que você tem que ser mentalmente muito forte para vencê-lo. Vimos cerca de 20 pessoas serem resgatadas todos os dias e muitos corpos", diz Tashi.

A experiência de ver um experiente montanhista nepalês com os dedos necrosados, a caminho da amputação, e outro renomado alpinista coreano com os pulmões congelados não foram muito inspiradoras. O momento mais dramático, segundo elas, se deu no caminho para o acampamento 4, que fica a 8000 metros de altitude. As irmãs têm o compromisso de só prosseguir numa jornada caso ambas tenham condições de cumpri-la, e o cilindro de oxigênio de Nungshi estava apresentando problemas. Socorrida pela irmã, ela conseguiu subir, num cenário bem desfavorável, com muito vento e sob uma temperatura de 30 graus negativos, com sensação térmica de -50º. "Demorava 15 segundos para dar um único passo", lembra Nungshi.

A visão que tiveram fez tudo valer a pena. "É incrível estar tão alto, vendo outras montanhas tremendamente altas abaixo de nós. Outra sensação estranha é ver o sol nascer abaixo de nós".

Depois de cravarem a bandeira indiana no topo do mundo, as irmãs iniciaram o penoso processo de descida, ainda mais complicado do que a subida. "É desesperador ver às vezes um objetivo tão próximo mas simplesmente não ter energia suficiente para andar. No meio da caminhada, Nunghsi perdeu a consciência por cinco minutos. "Eu me senti no paraíso, porque só havia nuvens, e um som que soava de todas as direções, parecendo a voz de Deus. Realmente senti que tinha morrido. Mas ouvi uma voz interior me chamando, e consegui recobrar a consciência. Quando vi a face da minha irmã na minha frente, vivi um momento que foi tão ou mais importante do que atingir o cume", lembra Nungshi.

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