Daniel Zappe/EXEMPLUS/CPB
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Giba neles! Destaque do vôlei sentado comemora tetra e relembra encontro com xará olímpico

Time masculino conquistou o quarto ouro seguido em Parapans ao derrotar os Estados Unidos por 3 sets a 0

João Prata, enviado especial a Lima, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 04h30

Entre o final dos anos 90 e início dos 2000, uma menina enviou uma carta a Galvão Bueno sugerindo que ele dissesse "Giba neles!" nas transmissões quando o então principal jogador da seleção brasileira de vôlei marcasse ponto. O bordão pegou e marcou a vida de Giba a ponto de se tornar o título de sua biografia.

Mas o tempo passa, diria outro narrador, a fila anda e por direito adquirido outro atleta considera também seu o termo criado para o colega de profissão. Giba é também o apelido do craque da seleção de vôlei sentado, que faturou a medalha de ouro no Parapan de Lima. Foi a quarta conquista consecutiva na competição. A quarta com vitória sobre os Estados Unidos na final. Na capitão peruana, foram 3 sets a 0, com parciais de 25/18, 25/22 e 25/12. 

O xará do ex-jogador das quadras foi o destaque da decisão com 14 pontos anotados. "Coroou uma comissão nova, um projeto novo. Falava sempre para os meninos: tenho três medalhas de ouro e para mim não tenho nenhuma. Viemos para Lima com a equipe desentrosada, com vários problemas e falei para eles: não adianta depois chorar, vamos fazer o melhor. Graças a Deus deu tudo certo e agora vamos comemorar", disse.

Giba defende o Brasil no vôlei sentado desde os Jogos do Rio-2007, ano em que teve o único encontro com o parceiro de bordão. Eles são contemporâneos. O do esporte paralímpico tem40 anos, enquanto que o ex-atleta olímpico é somente dois anos mais velho, mas aposentado das quadras desde 2014.

"Foi muito legal. Na época o Giba jogava pelo Pinheiros que tinha um timão. Fui lá assistir a partida e ficamos conversando. Ele perguntou se o apelido tinha relação com meu nome. Disse que sim, sou Gilberto. Ele foi muito simpático, muito gentil, mas depois nunca mais nos encontramos e seguem falando para mim Giba neles", disse. 

VOLTA POR CIMA

Giba quase ficou de fora da competição em Lima. No final do ano passado, ele perdeu o genro, vítima de um acidente de moto. O garoto tinha 26 anos e estava casado com a filha do jogador havia 30 dias. "Era um moleque que eu amava muito, como um filho. Estava muito para baixo. Engordei 20 quilos", comentou.

Coube ao técnico da seleção brasileira, Célio Mediato, telefonar ao astro da equipe e ajudá-lo a superar a perda. "Falei de início que não queria voltar, estava muito desanimado. A comissão técnica disse que não podia ficar daquele jeito, que precisavam muito de mim, que havia muitos garotos na seleção... E acabei aceitando."

Quando acabou a partida da decisão, Giba foi cercado e abraçado por toda a equipe. "Fiquei muito emocionado, vieram me parabenizar. Graças a eles que a gente continua", afirmou. Animado com o tetra e com a família nas arquibancadas em Lima, ele acredita que ainda aguentará mais um ciclo. "A ideia inicial era parar em Tóquio, mas o treinador já pediu para seguir até o Paris-2024. Vamos ver, vou me cuidar."

ATROPELADO POR UM TREM 

O início da trajetória como ídolo do vôlei sentado começou em 2004, depois de ele  ter sido atropelado por um trem. "Fui cruzar a linha, um caminho que fazia todo dia e não olhei para o lado. Me pegou de frente e fui arremessado. Estou vivo por um milagre. Perdi só um pedaço da perna direita", contou.

Por ter ganhado mais uma chance na vida, saiu do hospital confiante de que a vida de motoboy que levava mudaria da água para o vinho. E foi o que aconteceu. Por indicação de um amigo conheceu o projeto de vôlei paralímpico que existia em Barueri, próximo a Carapicuíba, região onde sempre viveu. "Nunca tinha jogado vôlei. Só futebol mesmo. Mas quando joguei pela primeira vez me animei."

A primeira medalha conquistada nessa nova carreira ele guarda acima de todos os ouros dos parapans e também dos dois títulos mundiais. "Fui bronze no Estadual em 2005 e eleito melhor jogador. Foi o começo de tudo. Guardo com o maior carinho para lembrar sempre onde tudo começou."

O tetracampeão do parapan agora volta ao Brasil e com a meta de perder 20 quilos. Atualmente, ele joga pelo Corinthians e treina diariamente no Centro de Treinamento do Comitê Paralímpico Brasileiro. "Vou me cuidar e agora logo mais estamos em Tóquio."

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