Gilmar, o eterno camisa 1

Maior goleiro da história de Santos e Corinthians mantém discrição sobre para quem torce na decisão estadual

Bruno Deiro, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

O maior goleiro da história de Corinthians e Santos não diz para quem vai torcer na final do Paulista. Seria revelar um segredo histórico.Quis o destino que a decisão de hoje, 26 de abril, Dia do Goleiro, reunisse os dois times da vida de Gilmar dos Santos Neves. Aos 78 anos, ele ainda vê graça no futebol. "A tevê não sai do futebol, principalmente se for o Santos", entrega o zelador do prédio Mar Azul, no Guarujá, onde o bicampeão mundial vive com a mulher, Rachel.Seus 20 anos de carreira profissional foram dedicados aos dois lados - 11 para o Corinthians, 9 para o Santos. A saída conturbada do Corinthians, em 1961, deixou um carinho maior, nunca admitido, pelo Santos. Com um aceno de cabeça, ele admite: é impossível torcer por dois times ao mesmo tempo.As palavras de Gilmar rarearam. Deram lugar a gestos e expressões faciais, que mostram que o acidente vascular cerebral (AVC), há quase uma década, não lhe roubou a lucidez. Entende tudo o que lhe é perguntado, desde que dito pausadamente. Na memória, suas façanhas permanecem intactas. Mesmo sem grande entusiasmo com o futebol atual, acompanha avidamente. Goleiros? Conhece poucos da nova geração. Não consegue se lembrar de Felipe, do Corinthians, mas se recorda de Fábio Costa, do Santos, após a dica da mulher. "É aquele que chorou de emoção quando viu você, na Vila." Faz sinal de positivo e dá um sorriso: acha um bom goleiro.A expressão muda quando ouve alguém falar dos antigos colegas. Mostra preocupação ao saber que Nilton Santos luta contra o Mal de Alzheimer. "É mesmo?", diz, visivelmente penalizado. Alivia-se quando informado que o companheiro nas conquistas de 1958 e 1962 é bem tratado no Rio.Gilmar foi um dos pioneiros na luta por uma aposentadoria digna para ex-campeões mundiais. A batalha é mantida por seu filho, Marcelo, que preside a Associação de Campeões Mundiais de Futebol. Os amigos do futebol, porém, Gilmar não vê há muito tempo. O ex-companheiro Pepe foi um dos poucos que foram ao hospital quando Gilmar sofreu o AVC. A mulher estranha que Pelé nunca tenha aparecido. "E eles eram tão ligados..." Ao seu lado, Gilmar não mostra decepção ou ressentimento. Ele não é saudosista. Há dois anos, quando se mudou com Rachel para o Guarujá, deixou troféus, fotos, medalhas e uniformes no apartamento de São Paulo. O tesouro é guardado por Marcelo, que também lhe entrega semanalmente as cartas de fãs . Ainda hoje elas chegam, grande parte vindas da Alemanha, muitas da Suécia. "O alemão tem uma paixão (por ele) que passa de pai para filho. Na Suécia também é demais, porque ele esteve lá, né?", diz Rachel, como se alguém pudesse se esquecer da passagem de Gilmar pelo país nórdico, em 1958, na conquista da primeira Copa do Mundo pela seleção brasileira. A maioria das cartas é para pedir fotos e autógrafos, e todas são respondidas com uma fotocópia da assinatura de Gilmar. Quando, em dias de sol, sai para um passeio com a mulher e a enfermeira, vira atração. "Até velho vira criança quando chega perto dele, sempre o reconhecem", afirmam os funcionários do edifício.Os dedos das mãos com pontas tortas são o que restou dos tempos de goleiro. "Olha, são todos quebrados", aponta Rachel. Durante um bom tempo eles doeram, mas hoje já não incomodam. O braço direito, paralisado, repousa junto ao corpo. Na mão esquerda, Gilmar concentra os gestos e, volta e meia, busca carinhosamente a mão de Rachel, sua companheira há quase 49 anos.Sem luxos, por causa do alto custo do tratamento, os dois levam vida tranquila e feliz no apartamento de 150 metros quadrados, com uma esplêndida vista para a Praia de Pitangueiras. "Ele adora, fica horas e horas na janela olhando o mar." QUEM É ELE Nome: Gilmar dos Santos Neves Nascimento: 22 de setembro de 1930 Local: Santos Clubes: Jabaquara (1950/1951), Corinthians (1951 a 1961) e Santos (1962 a 1969) Seleção: 01/03/1953 a 12/06/1969 Jogos pela seleção: 103 Gols sofridos pela seleção: 104 Títulos: paulista (1951, 1952 e 1954) e do Rio-São Paulo (1953 e 1954) pelo Corinthians; paulista (1962, 1964, 1965, 1967 e 1968), da Taça Brasil (1962, 1963, 1964, 1965), da Libertadores (1962 e 1963), do Mundial de Clubes (1962 e 1963) e do Rio-São Paulo (1963,1964 e 1966) pelo Santos; Copa do Mundo de 1958, na Suécia, e 1962, no Chile, pela seleção brasileira

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