Ginástica sem lar e em crise

Federação carioca funciona há dois anos na casa da presidente da entidade, Andréa João

Bruno Lousada, O Estadao de S.Paulo

18 de setembro de 2008 | 00h00

Numa prova de que o esporte olímpico brasileiro precisa de mais investimentos para tentar incomodar as potências mundiais, a Federação de Ginástica do Estado do Rio de Janeiro (FGERJ) passa por uma situação inusitada e calamitosa: a entidade funciona na casa da presidente da federação, Andréa João, no bairro da Tijuca (zona norte), há dois anos.E o que é pior: enquanto espera por reformas, a nova sede, localizada debaixo das arquibancadas da Pista Célio de Barros, no Complexo do Maracanã, fica exposta às condições do tempo. Quando chove, por exemplo, a sala inunda."Não existe mais espaço na minha residência, tomada por documentos da federação. É um drama", diz Andréa, que assumiu a presidência da FGERJ em 11 de agosto de 1999 e se assustou com o caos patrimonial que herdou, segundo ela, da gestão anterior.Encontrou na sede da federação, então situada no Maracanãzinho, arquivos desorganizados, um computador antigo sem conserto, infiltrações no teto e instalações elétricas precárias, além de constatar a inexistência de cadastros atualizados de técnicos, árbitros e atletas. Sem recurso, Andréa fechou as portas da sede da FGERJ em 2006 e demitiu todos os funcionários. Ela disse ter enviado uma carta para a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) pedindo ajuda para contornar a situação, mas seu apelo não surtiu efeito. "Faltou sensibilidade. O Ministério do Esporte, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a Prefeitura do Rio e a CBG se lixaram para o problema", critica a dirigente, que trabalha como comentarista da SporTV e da Rede Globo, e é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mas ela não pára por aí. "A Lei Agnelo Piva (segundo a qual 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do País são repassados ao COB) não chega às federações. Pára nas confederações", protesta. "E a gente ainda sonha virar sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Não sei o que acontece..."No fim do ano passado, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro(Suderj), administradora do Maracanã, emprestou para a federação uma "nova casa": uma minúscula sala em precárias condições, que já ficou alagada três vezes neste ano por causa da chuva, destruindo computadores e documentos.Para Andréa, a realidade da ginástica no Rio é mais dura do que se possa imaginar. "Gasto dinheiro do meu bolso para a federação funcionar", desabafa. E continua: "Uso até meu carro para levar equipamentos aos locais de competição. Se a criança não tiver dinheiro, não compete. É triste."Sem um mínimo de estrutura, a entidade só tem a comemorar a anistia da dívida de R$ 200 mil deixada por administrações anteriores. Andréa acha que isso renova a esperança de dias melhores. "Foi uma grande conquista. Só falta o Estado apoiar nossos projetos." Procurada pelo Estado, a CBG não se manifestou sobre o assunto.

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