Brian Snyder/Reuters
Brian Snyder/Reuters

Golfe passa a ser esperança de medalha nos Jogos de 2016

Federação traz técnico inglês e investe em atletas radicados fora do Brasil

Alessandro Lucchetti, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2014 | 04h58

SÃO PAULO - A indústria tabagista não produziu apenas câncer, bitucas e fumaça. Por um acidente do destino, a produção de cigarros está diretamente relacionada ao desenvolvimento da carreira do melhor golfista brasileiro, o gaúcho Adilson da Silva, que ocupa a 257ª posição no ranking da Federação Internacional. O brasileiro que o persegue mais de perto na listagem é o paulista Alexandre Rocha, o 407º.

Quando era adolescente, Adilson, que morava perto de um campo de golfe em Santa Cruz, costumava entrar lá para tentar ganhar alguns trocados. “Depois da escola eu ia procurar bolas para depois vender, e ganhava um dinheirinho como caddie (carregador de tacos). Lá eu conheci o Andrew Edmundson, que ia comprar fumo para a empresa dele. Ficamos amigos e, depois de alguns anos, ele me convidou para tentar a carreira de golfista em Harare, no Zimbábue.”

Adilson se mudou aos 17 anos para a capital zimbabuana e hoje mora em Durban, na África do Sul. Competindo pelo mundo, mas dando ênfase ao circuito sul-africano, ele evoluiu no ranking e sente-se afortunado por ter dado a tacada certa. “Meus pais nunca teriam dinheiro para que eu pudesse ser golfista no Brasil. Eu teria de ser sócio do clube, precisaria comprar um título”, diz Adilson, filho de um carpinteiro.

Mesmo situado fora da lista dos 200 melhores golfistas do mundo, Adilson, aos 41 anos, acha que tem lá suas chances nos Jogos Olímpicos do Rio. “O golfe permite que qualquer um ganhe um torneio, qualquer um. Bastam quatro golpes de um jogo bom. Isso pode acontecer a qualquer hora, em qualquer torneio, em qualquer dia.”

O golfe volta à programação dos Jogos Olímpicos depois de um afastamento que durou mais de um século. A modalidade esteve presente no evento apenas duas vezes – a última foi em Saint Louis, em 1904, quando apenas atletas dos Estados Unidos e do Canadá participaram. Por falar em Canadá, a modalidade já vai fazer parte dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em 2015. O presidente da Confederação Brasileira de Golfe, Paulo Pacheco, está empolgado. “O Brasil vai ser uma surpresa para o golfe, e o golfe vai ser o maior legado da Olimpíada.”

Por ora, o que o golfe está dando é dor de cabeça. A ONG Sociedade do Bem ingressou com ação civil na 8ª Vara da Fazenda Pública pedindo a paralisação da construção do campo olímpico, à beira da Lagoa de Marapendi. A entidade alega que se trata de uma área de reserva ambiental, e nesse caso, a Lei da Mata Atlântica (11.428/06) determina a elaboração de estudos na hipótese de “obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação ao meio ambiente”.

O campo, orçado em R$ 60 milhões pela prefeitura do Rio, está sendo construído pela Flori Empreendimentos Imobiliários Ltda. Em troca, a empresa recebeu área às margens da Avenida das Américas para erguer 23 prédios de 22 andares. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente emitiu licença ambiental para a construção do campo, mas há pareceres contrários do Ministério Público Estadual e de um biólogo da prefeitura. Pacheco alega que, em vez de causar danos ambientais, a obra está recuperando uma área degradada. “Os pássaros e as capivaras estão voltando.”

O Brasil tem 25 mil praticantes – 10 mil são federados. A CBG pleiteia uma vaga garantida no masculino e outra no feminino por ser o país-sede. O país pode ter mais uma vaga em cada categoria se alguém se classificar pelo ranking mundial. Hoje, o Brasil teria duas vagas apenas no masculino.

A meta da CBG é ter dois representantes em 2016 e quatro em 2020. Para atingir esse objtivo, a entidade está enviando jogadores para a disputa de importantes torneios internacionais, em um calendário elaborado pelo técnico contratado pelo órgão, o inglês Shaun Case, que deve se mudar para cá até março, segundo Pacheco.

No feminino, as esperanças brasileiras de resultados mais imediatos se localizam em jogadoras radicadas no exterior. É o caso de Luiza Altmann, jogadora de 16 anos que treina com Sean Foley, técnico de Tiger Woods.

Ela já foi campeã do estado da Flórida na divisão juvenil. A maior aposta é Angela Park, que chegou a ocupar a 14ª posição no ranking mundial. Filha de pais sul-coreanos e nascida em Foz do Iguaçu, ela mora nos Estados Unidos desde os oito anos. Em 2010, decidiu abandonar o golfe chegou a trabalhar como recepcionista em um hotel da Califórnia, mas voltou em agosto do ano passado.

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