''Gols ainda sei fazer. Agora quero títulos''

LUIS FABIANO

Giuliander Carpes, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

Centroavante do São Paulo

Luis Fabiano saiu do São Paulo sem um grande título na bagagem, mas com uma tremenda idolatria por parte da torcida tricolor. Sempre foi o jogador que encarnou em campo um torcedor. Fez muitos gols e, em outros momentos, protagonizou brigas ferozes.

Sete anos depois, aquele rapaz de sangue quente já não se mete em tantas confusões. Aprendeu, em sua passagem pela Europa (por Porto e Sevilla), que o comportamento também é característica fundamental de um campeão. De volta ao São Paulo, após concorridíssima festa de apresentação, pretende conquistar tudo o que não conseguiu na sua primeira passagem.

"Aqui eu fui artilheiro no Paulista, Libertadores, Brasileiro, Copa dos Campeões e ganhei só o Rio-São Paulo. O que falta é título. Quando vier o primeiro, virão muitos", garante o jogador, em entrevista exclusiva ao Estado. O atacante ainda não sabe quando vai reestrear. Ontem o clube anunciou que ele está fora do jogo contra o Goiás, na quarta-feira, pela Copa do Brasil.

Ainda não dá para estrear?

Ainda quero melhorar fisicamente e tecnicamente. Eu sinto que estou preso para alguns movimentos. Aos poucos vou me soltar e ser a peça que falta. Mas ainda preciso melhorar para fazer uma estreia digna. Não quero ser uma decepção.

O Carpegiani disse que você não precisa estar 100% para jogar da maneira que ele deseja.

Não conversamos em termos táticos ainda, mas ele fala que com 90% já dá para jogar, porque temos muitos jogadores de movimentação, falta uma referência na área. Eu venho de muito tempo jogando no futebol europeu, que você precisa se movimentar muito, já não consigo ficar parado esperando a jogada aparecer na área. Eu tenho de estar em contato com a bola, participando, porque fico angustiado. Espero ter essa movimentação, mas também sendo essa referência, o cara para finalizar.

O que significou o retorno ao São Paulo?

É importante para eu continuar minha história aqui. Foram três anos na minha primeira passagem, o que é pouco tempo para ganhar títulos importantes. Fui embora em 2004 e, no ano seguinte, o São Paulo conquistou vários títulos sem mim. Essa nova chance vai servir para ganhar o título que falta. Voltei para ser campeão. Quero ficar ainda entre os cinco maiores artilheiros do São Paulo. Mas o que quero mesmo é conquistar títulos. Gols eu já fiz muitos.

Você tem 118 gols contra 242 do Serginho Chulapa. Não dá para ser o maior artilheiro?

Tem chance, mas não é o meu principal objetivo. Quero títulos. Na minha primeira passagem, eu marcava três gols e o time sofria quatro. No Sevilla, eu consegui ser o quinto maior artilheiro e ganhar seis títulos em seis anos. Aqui eu fui artilheiro no Paulista, Libertadores, Brasileiro, Copa dos Campeões e ganhei só o Rio- São Paulo. O que falta é título. Quando vier o primeiro, virão muitos. Mas tem que manter os jogadores, porque eu confio neste grupo. Vejo muito talento, qualidade.

Voltou na hora certa para isso?

Com 30 anos, estou no melhor momento em termos de maturidade e fisicamente. Eu me considero preparado. Agora, é mostrar serviço em campo, provar que voltei de verdade, porque muitos voltam e ficam cambaleando. Quero voltar em alto nível, jogando bem, para que ninguém duvide da minha capacidade.

Você acha que os torcedores que te chamaram de "pipoqueiro" em 2004 estavam no Morumbi para te receber?

Não preciso provar mais nada. Conquistei tudo que tinha de conquistar fora do Brasil. Eu fui campeão do mundo pelo Porto (em 2005) antes do São Paulo. Provar não, mas tenho de matar um leão por dia. No futebol, passado é passado. Ninguém pode achar que hoje sou aquele mesmo Luis Fabiano de 22 anos que jogava aqui. Nunca dá para fazer as mesmas coisas. Mas gol eu sei fazer. Pelo menos acho que não desaprendi. Claro que sempre vai existir quem não goste de mim. Nem Jesus agradou a todo mundo. Mas tenho certeza que os que me xingaram estavam lá na festa gritando. Futebol muda rápido. Quem me vaiou vai me aplaudir.

Mas isso só virá com título...

Para completar minha história aqui, falta esse título importante. Nunca vi ser o que eu sou sem um título. Foram 118 gols em três anos. É muita coisa. E sempre que vestia a camisa do São Paulo, vestia de verdade. Os torcedores sabem disso. Eles viam que eu lutava. Desde moleque, não aceitava perder. Muitas vezes, levava isso para dentro do campo. Foi bom, mas me atrapalhou também. Tomei muitos cartões, coisas que ficam marcadas negativamente na minha carreira.

O Luis de 30 anos mudou isso?

Agora sou da paz. Obviamente não sou bonzinho, vou fazer besteiras, porque não tenho sangue de barata. Mas vou pensar muito mais antes de fazer qualquer coisa.

Você se firmou como o artilheiro da seleção, mas depois do fracasso da Copa não foi mais chamado. Ainda pensa em seleção?

Sim, tenho condições de ajudar. Mas isso vai depender do meu desempenho, de o treinador querer contar comigo. Agora penso só no São Paulo. A seleção vem naturalmente se eu for bem aqui.

Quase um ano depois, você já chegou a uma conclusão do que deu errado na Copa?

Se eu pudesse voltar no tempo, a única coisa que faria de diferente era no intervalo dar uma ligada no time. O primeiro tempo foi excepcional. A Holanda estava medrosa, dando muita porrada, toda atrás. Aí voltamos com um pouquinho de excesso de confiança e fomos surpreendidos. Mas o que tinha de ser feito, foi feito. Infelizmente, às vezes, não dá certo. A gente fez de tudo para chegar à final, o grupo estava unido, o ambiente estava bom. Perder uma Copa não tem explicação. Doí até hoje e vai doer para sempre.

O time entrou em parafuso depois da falha do Julio Cesar?

Levar um gol daquela maneira em uma Copa faz qualquer seleção sentir. A gente não contava com essas falhas. Errar é humano. Infelizmente foi naquele momento, poderia ter sido nas Eliminatórias, o que não iria causar tanto prejuízo. Aconteceu com o Julio, que é o melhor goleiro do mundo. Sentimos o gol, aí foi uma sucessão de coisas. Levamos o segundo, o Felipe foi expulso... Correr atrás é muito difícil. A Holanda cresceu. O desespero bateu porque envolve muita pressão.

O trabalho de quatro anos foi jogado fora em 45 minutos...

Foi um trabalho excepcional, com muita pressão, principalmente em cima do Dunga. A imprensa judiando da gente. Depois da campanha nas Eliminatórias e do título da Copa das Confederações, tínhamos de coroar com o título da Copa, mas ele não veio. Só não podemos jogar fora tudo que fizemos. O importante era ser campeão, mas foram quatro bons anos.

Como foi voltar a treinar depois da Copa, sabendo que muitos clubes o queriam, mas o Sevilla não liberava?

Foi muito duro, principalmente por causa de promessas não cumpridas pelo Sevilla. Além disso, sem ter uma pré-temporada digna, voltei de uma Copa como titular e artilheiro da seleção para o banco de reservas do Sevilla, que é um time muito bom, mas não é grande, nunca será um Barça ou Real Madrid. Ali comecei a pensar em voltar. Tive muitas oportunidades de sair, mas nunca se concretizou porque o Sevilla não quis. É um clube muito duro para negociar. Então, eu sabia que era muito complicado de sair. Pensei que a melhor maneira era convencer o presidente. Fui falando que o meu ciclo tinha terminado. Mas foi difícil. Tive propostas de muitos times brasileiros por empréstimo. Só o Corinthians apresentou oferta de compra, mas pensei bem e jogar no Corinthians não seria bom para ninguém. Tenho o coração são-paulino. Depois chegou o São Paulo e tudo correu melhor. Mas acho que só estou aqui hoje porque me lesionei. Se não tivesse me machucado, eles não iriam me liberar. Foi uma lesão que veio para o bem.

Você perdeu muito dinheiro para voltar?

Abri mão de prêmios que tinha para receber de uma temporada inteira. Não adiantava ficar lá, machucado, infeliz, mas ganhar dinheiro. São coisas que você às vezes precisa abrir mão. E fiz isso porque era o São Paulo. Se fosse outro clube, não faria. Disse para o presidente do Sevilla: pode ficar com tudo.

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