Gols de placa

Carreiras longas trazem alegrias e contratempos; é fato, lei da vida e não deve angustiar ninguém. O amigo que me lê e coleciona muitos carnavais sabe do que falo. Certamente viveu episódios de euforia e momentos tristes no trabalho. Acontece, fazer o quê?

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h01

O futebol segue toada idêntica, e às vezes se mostra mais impiedoso do que outras atividades. Aí temos Rogério Ceni como o exemplo da semana pra confirmar a tese. O goleiro tem títulos, minutos de jogo e histórias como poucos na profissão dele. Ídolo, símbolo e um dos grandes artilheiros do São Paulo. Isso mesmo, com a pontaria certeira que tem, o camisa 01 marcou mais gols do que muito centroavante especialista.

Rogério Ceni, quarentão em boa forma, mas já com a passada gingada dos atletas veteranos, curtiu o 100.º gol dele bem em cima do Corinthians, num episódio inesquecível. Quer satisfação maior do que essa? O mesmo Rogério perdeu as contas dos gols que levou do Corinthians - recentemente, foram dois na primeira apresentação no estádio de Itaquera, e pela Libertadores.

Deve ter pensado que, se houvesse optado pela aposentadoria no final de 2014, como em princípio estava programado, dormiria sem essa. Continuou na estrada, então precisa aguentar o tranco. E não é que topou com outra, no meio da semana? O gol de Robinho, no novo campo palestrino, foi daqueles de colocar goleiro de joelhos. Mereceu até placa oferecida pela diretoria verde.

Não foi nem o primeiro gol de placa que o mítico Rogério Ceni tomou de boleiro palmeirense. Alex, em 2002, aplicou-lhe um chapéu, antes de mandar a bola para as redes, num clássico no Morumbi. Na ocasião, ganhou uma placa do clube que defendia. Na sexta-feira, ganhou outra, oferta de Paulo Nobre. O dirigente de hoje aproveitou a deixa para homenagear Robinho e Alex (que ontem à noite teve jogo de despedida no Allianz Parque) e, por tabela, deu uma cutucada no rival. Com elegância, com classe, sem baixaria.

Os dois lances valeram as placas para os autores, pela beleza e pelo fato de terem tido como vítima um dos mais brilhantes goleiros do futebol brasileiro. Não era um obscuro guarda-metas (essa é antiga) de um frágil time do interior. Foi em cima do gigante Rogério Ceni, carrasco de colegas em suas cobranças de falta e de pênalti.

Aproveito a brecha e vou além: os gols mereciam placas em área nobre dos estádios em que foram marcados. Os clubes deveriam registrar tais proezas e torná-las imortais. Não importa nada se foram obtidos contra o dono da casa; interessa realçar a beleza do futebol. O espaço seria ponto de atração para as arenas. Se possível, com monitores em que pudessem ser revistas as jogadas mágicas. Uma maneira bacana de preservar a memória do esporte, um jeito de cativar o torcedor.

Ainda a propósito de Rogério Ceni. Há quem diga que passou da hora de ele pendurar as luvas, porque já não teria os reflexos de antes. Pode ser. Não teremos eternamente a agilidade da juventude. Prefiro louvar a regularidade de um atleta dedicado e que desafia preconceitos com idade. Corre o risco de levar outros gols de placa, claro. Tudo bem, haverá mais histórias para relembrar. Melhor isso do que passar a vida em branco.

E como são bonitos os gols de placa! Que venham muitos, sempre.

Amarelo no tricolor. A cor do alerta não combina com vermelho, branco e preto do São Paulo. Mas por ora é a predominante. A derrota para o Palmeiras quase provocou maremoto na comissão técnica, e Muricy Ramalho só não perdeu o emprego porque a diretoria não aceitou a demissão e resolveu dar-lhe crédito de confiança. Mas ele sabe que o aval não terá longa duração, se não vierem resultados como contrapartida.

Muricy será cobrado hoje, no jogo com o Linense, e se prepara para o tufão nos três jogos restantes da fase de grupos na Libertadores. Se a equipe não avançar de fase, a casa cai. O desafio está em fazer essa turma jogar como manda o figurino.

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