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Ugo Giorgetti
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Grande Hotel

Segundo o Google a seleção brasileira foi formada pela primeira vez em 14 de agosto de 1914. Não creio que nessa longa história se tenha produzido um fato mais ridículo do que o que está acontecendo agora no Hotel Mercure, de Goiânia.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h03

Primeiro o hotel foi esvaziado para receber a seleção brasileira. Sim, hóspedes talvez tenham sido despejados, reservas canceladas, quartos trancados e funcionários silenciosos andando na ponta dos pés; só faltou um enlouquecido Jack Nicholson percorrendo corredores abandonados como no filme "O iluminado". E nesse silêncio foram colocados os jogadores.

É evidente que a CBF paga pelos quartos que esvaziou e o hotel fez, no fundo, um grande negócio. Mas não é só. Uma cartilha foi redigida com regulamentos que honram nossas melhores tradições no campo da burocracia. Ninguém tem acesso aos jogadores sem que pedidos por escrito, com as devidas explicações, por escrito, e finalmente, se for o caso, com autorização, por escrito, e assinadas por Felipão, sejam apresentadas.

Mais: jogadores só serão servidos no quarto por camareiros acompanhados por homens da segurança da CBF ou pelo gerente do hotel. Durante as refeições, no restaurante do hotel vazio, serviçais e garçons não podem, de maneira alguma, dirigir a palavra aos jogadores. Só se dirigem aos jogadores se, ou quando, solicitados por estes. Pedidos de autógrafos e fotos nem pensar. É algo de fazer o Dunga parecer um liberal. E tudo isso por quê? De que tem medo a CBF? Dos empresários? Pouco provável. Quase nenhum jogador ainda joga no Brasil e nesses ninguém tem interesse. Da inconveniência de se perturbar jogadores que no silêncio de seus quartos meditam ou leem Hegel?

Muito difícil. O que é então que a CBF e Felipão temem? Por que seguranças e gerentes entram nos quartos escoltando atentamente quem transporta um misto quente ou uma omelete? O que esperam surpreender os espiões? Esse método de treinadores tentando desvendar segredos nas concentrações é antigo. Brandão fazia isso com bastante frequência. Até Telê Santana costumava se preocupar com as perigosas horas mortas em que jogadores estão em seus quartos.

Mas eram malandros, e não ridículos. Iam eles mesmos nos quartos.

Faziam eles mesmos a ronda. Não mandavam espiões de filmes, nem tomavam medidas de chanchadas pré-históricas. É claro que todo esse trabalhoso esquema serve para ocultar uma única preocupação: mulheres. As eternas, agradáveis, perigosas mulheres. O fantasma das concentrações são as moças que se introduzem ou são levadas para os quartos. O medo é que quem vem trazendo um misto quente, de repente, dispa o uniforme de camareiro e revele uma bela garota disfarçada. Ou então, mais singular ainda, digamos, é que a atração talvez possa ser o próprio camareiro do hotel, o que tornaria as coisas definitivamente embaraçosas para todo o estafe da seleção. Enfim, as hipóteses estão aí em aberto. Porque tudo isso é definitivamente delirante, e, sobretudo, de um autoritarismo insensato.

Por que um garçom não pode pedir autógrafo, ou dirigir a palavra, a um jogador de futebol? Quando isso jamais aconteceu numa seleção ou clube? Quem essa gente da CBF pensa que são esses jogadores para se distanciarem assim dos mortais? Não é tratando esses garotos dessa forma, com rituais que lembram o despertar de Luiz XIV, que vamos ganhar a Copa. É jogando bola, como sempre fizemos e com mulheres e homens infiltrados nas concentrações como, suponho, sempre fizemos. E como faz o resto do mundo.

Quem gosta de ficar num quarto olhando para o teto, vendo TV, fazendo joguinhos ou falando nos celulares? Ninguém gosta de concentração. Burlar concentração é ponto de honra para muitos grandes jogadores de futebol. O resto são medidas, entre ridículas e odiosas, que só servem para indispor os jogadores com sua própria gente.

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