Grito contra o 'lado oculto' dos Jogos

Grupos de ativistas se unem para, no próximo sábado, protestar em Londres contra o alto ônus social do evento

PAULO FAVERO , ENVIADO ESPECIAL/ LONDRES, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h07

 Parte da população de Londres e alguns intelectuais britânicos estão unidos para revelar o que eles chamam de "legado oculto" dos Jogos Olímpicos. Muitas manifestações já foram feitas - e abafadas -, mas agora os ativistas querem unir um grande grupo de pessoas em um protesto único no próximo sábado. Já foram confirmados 43 grupos, que terão como ponto de encontro o Mile Park End. A maior bronca é em relação à forma como o governo local abriu mão de sua soberania para receber a competição.

Isaac Marrero-Guillamón, pós-doutorando na Escola de Artes Birkbeck, escreveu um artigo onde aponta o que ele chama de "Estado Olímpico de Exceção". Para o professor, essa situação cria uma ilha livre de impostos para o Comitê Olímpico Internacional (COI) e seus parceiros. "As liberdades civis foram suspensas e até palavras como 'verão' foram protegidas em nome dos interesses dessas corporações. Isso tudo é baseado no conceito de parceria público-privado, mas cerca de 98% dos gastos vieram dos órgãos públicos", denuncia.

Marrero também pondera sobre a excessiva militarização urbana que pode ser vista por qualquer um na paisagem londrina. Para se entrar no Centro de Imprensa, por exemplo, percorre-se um longo caminho com grades altas e cercas eletrificadas que mais parecem a entrada de um presídio de segurança máxima. "Os Jogos se tornaram uma desculpa para os regimes agressivos de repressão", afirma.

Ele explica que além de toda a área do Parque Olímpico, um outro bom exemplo é o Clays Lane State, um projeto residencial comunitário de baixa classe, para pessoas em vulnerabilidade social, que foi demolido por causa dos Jogos.

A briga foi grande na época e muitos dos 430 moradores do local reclamaram de ter de mudar de endereço. Não só pelas novas casas que foram oferecidas, mas muitos reclamaram que aquilo fazia com que se perdessem os laços comunitários. Após muita discussão, a Justiça ordenou a remoção da população em julho de 2007. Dois meses depois, o prédio começou a ser derrubado.

Segundo estimativa dos grupos contrários a esta situação, no total cerca de 1.500 casas, mais de 200 pequenas empresas e 5 mil pessoas foram afetadas com a construção do Parque Olímpico.

O geógrafo Mike Raco, do King's College, coloca em um artigo acadêmico que, ao contrário do discurso comum, de que a região era um local degradado e pouco atrativo, no fundo contava com uma rica vida econômica por causa dessas pequenas empresas. Mas as políticas de intervenção urbana fizeram com que os negócios fossem desmantelados e expulsos de lá.

Já a Vila Olímpica recebe ainda mais críticas porque, após a competição, se tornará um espaço de moradia para a alta classe londrina, com apartamentos luxuosos e um dos novos pontos de valorização imobiliária na cidade. Essa região, no lado leste, conta ainda com um gigantesco shopping center, que é porta de entrada para o Parque Olímpico e local que vem sendo aludido como o centro de consumo para quem pretender ver a competição ao vivo, como diz Marrero.

"Além de um parque cujo uso ainda é incerto, os Jogos deixarão um legado de dívida pública enorme, securitização embutida, uma regulação das atividades públicas sem precedente e uma repressão da dissidência."

Diferentes forças. As ações contra os Jogos de Londres estão sendo operadas por pequenos grupos que atuam independentemente e isso não pode ser considerado um movimento unificado. Na realidade, é uma coalizão de forças que tentam fazer muito barulho. No sábado, os críticos terão uma grande chance para escancarar essa situação. "Não queremos falar dos Jogos, mas de como o evento tem impacto na cidade-sede", conclui.

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