Guerreira Maurren

Aos 32 anos, ela dá a volta por cima e ganha por 1 cm da campeã de Atenas

O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2008 | 00h00

Maurren Maggi estava no auge em 2003 e se preparava para o Pan de Santo Domingo e os Jogos de Atenas. Foi suspensa por doping, entrou em depressão e decidiu abandonar a carreira. Dois anos depois teve uma filha, Sophia, a responsável por levá-la de volta ao atletismo. "Precisava sustentá-la, criá-la, mas não estudei e não sabia fazer nada fora do esporte, tive de voltar." Sophia tem só 3 anos de idade, mas pode se considerar fundamental na campanha brasileira em Pequim. Graças à garota, Maurren conquistou ontem o ouro no salto em distância, o segundo do País na Olimpíada.A paulista de São Carlos atingiu 7,04 metros e deixou para trás - por 1 centímetro - a última campeã, a russa Tatyana Lebedeva, e a nigeriana Blessing Okagbare, bronze. Sua história é daquelas marcantes, que valem o enredo de um filme. Como uma atleta pode retomar a carreira, fora de forma, em baixa, apagada, e tornar-se a melhor do mundo? "Vivi hoje (ontem) o segundo melhor momento da minha vida", desabafou Maurren. "O primeiro foi o nascimento da minha filha."Sophia tirou a mãe da depressão. Hoje só o atletismo é capaz de separá-las e, mesmo assim, a muito custo. A menina chegou a pedir a Maurren que não viajasse: "Você já tem muitas medalhas, mãe." A saltadora chorou, mas disse que não poderia perder a oportunidade. Um pódio mudaria a vida delas, justificou. E realmente já está mudando. O primeiro prêmio, de um dos patrocinadores, é de R$ 100 mil. E vários outros virão.A noite de ontem em Pequim (manhã no Brasil) foi épica. Maurren tornou-se a primeira sul-americana a conquistar medalha olímpica de ouro no atletismo e encerrou um jejum de 24 anos do País sem o primeiro lugar do pódio no esporte. O último havia sido de Joaquim Cruz nos 800 metros, em Los Angeles-84. "É inacreditável, vou voltar para casa com medalha", gritou, para que todos ouvissem.Na pista do Ninho de Pássaros, a brasileira exibia semblante de campeã: tranqüila e, ao mesmo tempo, determinada, ciente de que era uma das favoritas. No primeiro salto, cravou 7,04 m e intimidou as rivais. Na sexta e última tentativa da principal adversária, Lebedeva, levou um susto. A russa alcançou 7,03. Ufa! Era hora da festa e da volta olímpica para 90 mil pessoas. Nas mãos, uma bandeira do Brasil e outra da China.Chegou a hora do hino nacional - e do choro. Acabada a cerimônia, com a medalha no peito, Maurren, eufórica, foi para a sala de entrevistas. A primeira pergunta? Justamente sobre o doping. A atleta tratou de dar, mais uma vez, sua versão para o caso. "Foi uma fatalidade por causa de uma pomada que passei, sempre fui muito vaidosa", contou. Na sua urina encontrou-se a substância clostebol, que estaria presente no creme cicatrizante utilizado após sessão de depilação.Agora, após a volta por cima, os sonhos crescem. E, apesar dos 32 anos, a saltadora já fala no bicampeonato olímpico. "Quero ir para mais uma Olimpíada e, quem sabe, conquistar mais uma medalha", declarou. "Vou batalhar muito para estar em Londres."

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