Guerreiro samurai

A última lágrima que se tinha visto no rosto de Alonso havia sido de pura raiva. Na corrida final do Mundial de 2010, quando perdeu o título por um erro de estratégia da Ferrari, Alonso chegou ao box de Abu Dabi esbravejando contra Vitaly Petrov, contra a pista estreita que não lhe permitiu ultrapassar o russo da Renault e, sem poder xingar o responsável pela estratégia da sua própria equipe, caiu no choro. Nunca se tinha visto Alonso chorar de alegria no pódio em qualquer uma de suas 28 vitórias anteriores a esta de Valência.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h02

Mesmo nos dois títulos mundiais, ambos conquistados no Brasil em 2005 e 2006, Alonso subiu ao pódio sem choro. Na primeira ele chegou em 3.º, na vitória de Montoya. Na outra, ele foi 2.º, atrás de Massa. Em nenhuma delas se notou alguma emoção especial no espanhol. A frieza foi desmontada por uma vitória em pista espanhola, que não era a primeira (ele venceu em 2006 em Barcelona pela Renault), mas foi cercada por circunstâncias especiais. A começar de um grid sem nenhum carro da Ferrari nas cinco primeiras filas. Dez ultrapassagens na pista, além de outras três que a Ferrari ajudou a fazer nos boxes, premiaram Alonso com o melhor momento que ele viveu na carreira.

Se a partir daí ele vai conseguir lutar pelo título mundial é outra história. Mas o Mundial que chegou a Valência com os quatro primeiros pilotos separados por apenas nove pontos tem, agora, Alonso liderando com uma vantagem de 20 pontos para Webber, 23 para Hamilton e 26 para Vettel. A pitada de sorte foi ver Hamilton e Vettel não marcarem ponto. Alonso é agora o único que pontuou em todas as corridas do ano. Das oito disputadas, Webber, Hamilton e Raikkonen pontuaram em sete. Vettel, em seis. Mas os números do espanhol vão além disso. Ele soma 20 corridas consecutivas nos pontos (o recorde é de Schumacher, com 24, uma série iniciada em 2001 e encerrada em 2003).

Agora vem Silverstone. Nesta pista bastante veloz, em que 7 das 18 curvas são feitas a mais de 250 km/h e os carros superam os 300 km/h em seis trechos numa volta, a deficiência aerodinâmica da Ferrari será um desafio. Mas como duvidar de outra façanha do espanhol se no ano passado, com o pior carro dos últimos 20 anos da Ferrari, foi em Silverstone que ele conseguiu a única vitória do ano?

Alonso tornou-se fanático pela cultura samurai. Fez uma tatuagem de um militar japonês nas costas e mudou seu comportamento. Dividir a alegria com comissários de pista, esticar a bandeira espanhola no asfalto e abraçar efusivamente Schumacher quando os dois se encontraram no pódio foram atitudes que ele não tinha antes. O cumprimento a Raikkonen, aparentemente frio, é mais por conta do jeito de ser do finlandês. Os três se divertiram na entrevista oficial. Quando chegou a vez de Schumacher falar em alemão, ele simplesmente se esqueceu e continuou o depoimento para a TV alemã em inglês. Até que Alonso e Raikkonen chamaram a atenção dele e os três caíram numa gargalhada. Embora tenha ido ao pódio 155 vezes, fazia seis anos que ele não vivia aquela situação. Aos 43 anos, Schumi é o piloto mais velho a subir ao pódio desde o 2.º lugar de Jack Brabham em Brands Hatch em 1970, aos 44 anos.

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