Guerreiros

Há seis temporadas o Fluminense vem colecionando manchetes emocionantes sobre sua saga nos gramados. O último título nacional do time das Laranjeiras datava de 1984, um jejum incômodo e inédito na centenária história do clube. A conquista da Copa do Brasil, em 2007, marcou o fim da seca e anunciou novos e gloriosos tempos. Em 2008, uma campanha inesquecível na Libertadores foi sepultada pela altitude de Quito, pela mudança no regulamento de contagem de gols fora de casa e por uma dolorosa disputa de pênaltis no Maracanã. Apesar do desgosto, a torcida havia se apaixonado perdidamente por seu time. Um elo poderoso havia se criado.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2012 | 02h04

A simbiose entre time e torcida tornou-se notável justamente no pior momento dessas seis temporadas: a luta contra o rebaixamento em 2009.

Graças à união incondicional entre jogadores e torcedores, mesmo com 99% de chances de queda, o time permaneceu na primeira divisão. Não são poucos os que acham que essa arrancada foi mais importante do que alguns títulos, na trajetória de 110 anos do Tricolor. Ungido pela campanha santa que evitou a degola, o Time de Guerreiros, como passou a ser chamado, conquistou o Brasileiro de 2010. Em 2011, em que pese a campanha irregular enquanto esperava a chegada de Abel, o Flu conquistou o segundo turno do Brasileirão - e por pouco não atropelou na reta.

De volta à Libertadores em 2012 - sua terceira em quatro anos -, o Fluminense, mesmo desfalcado de pilares do seu elenco, como Fred, Deco e Carlinhos, só foi parado por um gol do Boca Juniors nos acréscimos.

Sem se abater, o time juntou os cacos e atropelou no Brasileirão, erguendo a taça com o melhor ataque, a melhor defesa, a melhor campanha dentro e fora de casa, o artilheiro Fred, o goleiraço Cavalieri e incríveis dez pontos de vantagem para o segundo colocado, a três rodadas do fim.

Muito ainda será falado sobre essa campanha do Fluminense, especialmente se o time superar o recorde de pontos do São Paulo de 2006 e o aproveitamento do Cruzeiro de 2003. Dito assim, ela parece uma conquista cristalina - como de fato foi -, mas o Flu precisou dobrar não apenas adversários como também arautos de teorias conspiratórias, que garantiam que o clube vinha sendo favorecido por uma suposta máfia de arbitragens. Os dez pontos de frente fizeram com que os críticos fossem se calando, um a um. Mas o fato é que, da mesma maneira que teve que suar a camisa para mostrar que os matemáticos estavam equivocados em 2009, o Tricolor teve de jogar muita bola para calar os que tentaram desqualificar sua extraordinária campanha de 2012.

O mais curioso, creio, é que dificilmente o Tricolor teria feito campanha tão grandiosa sem o coro dos corneteiros de plantão. As acusações injustas desse grupo de torcedores - e de alguns jornalistas - forjaram a união definitiva de um grupo de atletas que havia passado por muitas dificuldades para ter medo de caras feias. Se eu fosse o presidente Peter Siemsen, dedicaria a eles a quarta estrela que foi bordada para sempre sobre o escudo do Fluminense Football Club.

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