Célio Jr/AE - 3/12/2000
Célio Jr/AE - 3/12/2000

Guga relembra título da Masters Cup, há 10 anos: 'maior momento da carreira'

Tenista brasileiro, que se retirou das quadras em 2008 por causa de uma lesão no quadril, conta que outra contusão, logo na estreia, quase o fez ficar fora da disputa pelo nº 1 do mundo

Giuliander Carpes, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

Se hoje Gustavo Kuerten não consegue passar despercebido pelas quadras do planeta é porque, há 10 anos, levantou os troféus mais importantes de sua carreira: o título da Masters Cup (torneio que reúne os oito melhores tenistas do mundo ao fim de cada temporada) e o da liderança do ranking mundial.

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O brasileiro teve coragem de acreditar que poderia ser número 1 do mundo no tênis, mesmo sob intensas adversidades. Naquele torneio, uma lesão logo na primeira partida quase pôs tudo a perder. "Achava que não conseguiria jogar mais", lembra. Mas Guga seguiu em frente. Mesmo com o físico avariado, bateu ícones do esporte como Pete Sampras (quem nunca havia vencido), Andre Agassi, Yevgeny Kafelnikov e Magnus Norman para conquistar o título.

Feliz, numa fase nova de sua vida - casou-se há menos de um mês com a fonoaudióloga Mariana Soncini -, Guga falou ao Estado sobre os bastidores daquela conquista, a rivalidade com Andre Agassi - contra quem reedita aquela final da Masters Cup, no Maracanãzinho, dia 11 - e também a respeito do seu amor pelo esporte, que só aumenta desde que abandonou as quadras, na metade de 2008.

Imagino que aquela final tenha sido um dos momentos mais emocionantes da sua carreira.

O que chamou a atenção foi o nível de desempenho daquele jogo, talvez o maior de minha carreira. A forma como consegui conduzir o jogo todo, uma melhor de cinco sets, foi imponente. Acho que o fato de estar lesionado me obrigou a atingir alto nível de concentração. Foi o maior momento da minha carreira, a conquista de mais valor.

Quanto é difícil ganhar de um ídolo?

O fato de estar enfrentando esses caras mais naturalmente foi importante. Eles fizeram parte do meu desenvolvimento como tenista, mas, naquela época, já tinham virado rivais. O jogo com o Sampras foi até mais complexo. Nunca tinha vencido ele antes daquele jogo.

Chegou a achar que tudo estava perdido com aquela lesão nas costas (no 1º jogo, contra o próprio Agassi)?

Quando saí da quadra, não sabia nem se conseguiria continuar no torneio. Achava que não jogaria mais nenhuma partida. A chance de ser número 1 do mundo mesmo estava completamente descartada. Depois, no dia seguinte, começamos a buscar alternativas para eu jogar uma partida a mais porque era apenas minha segunda Masters Cup. Tinha de aproveitar aquela oportunidade.

A organização te deu um dia a mais também, não?

Eu tinha uma afinidade muito grande com o João Lagos, o organizador português da Masters Cup, porque joguei diversos torneios lá quando era menor. Sem dúvida que ele fez o máximo esforço junto à ATP para me dar mais um dia, que foi o que me salvou. Senão não teria condição alguma de ter competido.

E como está a expectativa para reeditar a final com o Agassi?

Remete direto a essas sensações do meu principal momento das quadras. Depois, ele é uma grande atração para o tênis.

As dores no quadril (que abreviaram sua carreira) ainda incomodam?

Hoje está um pouco mais fácil porque tenho que me concentrar numa partida específica apenas. Faço uma rotina com preparação física, fisioterapia. Uma rotina bem completa por umas seis semanas até chegar o dia do jogo. Porque gera uma expectativa de estar bem preparado e fazer um bom jogo. Até porque o Andre Agassi é um cara competitivo também. Por mais que não seja um torneio oficial, é bacana que a gente possa se desafiar, buscando sempre jogadas melhores tendo estas mesmas sensações de antes.

Quanto tempo você consegue ficar em quadra treinando?

Hoje em dia eu treino uma hora e meia. O que acaba consumindo mais é toda a rotina. Tem a parte física e de fisioterapia que consome grande parte do meu tempo. Diria que fico umas 4 horas por dia envolvido na preparação para o jogo. Para mim, estar na quadra é a melhor parte.

Você chega a treinar com o Larri Passos (seu antigo técnico)?

Esta semana devo ir umas duas vezes lá. A gurizada começa a pré-temporada e é bom estar em quadra com eles. Este tipo de treinamento na maioria das vezes não faço mais com ele porque ele também está envolvido com o pessoal do projeto dele. Mas quando tenho a oportunidade é legal ir lá. Porque é um local que por si só traz muita energia. É outro treino porque ele também é um cara que consegue me motivar bastante. Antes era uma rotina e agora é algo mais prazeroso.

Imagino que tenista que já sentiu o calor de uma quadra central nunca vai esquecer e sempre vai buscar sentir de novo.

É, o jogador fica refém destes sentimentos. Acho que, de alguma maneira, tem de tentar complementar. Um jogo aqui, outros desafios em áreas distintas ali. Tenho encontrado muito este tipo de vibração no Instituto (Guga Kuerten, que auxilia crianças carentes). É diferente. Existe uma ansiedade muito específica ao esporte.

Como está o trabalho com o instituto? Você também continua na faculdade de teatro?

Os projetos do instituto e outros paralelos de desenvolvimento do tênis acabam me deixando muito envolvido. Gosto de ser muito participativo nestas ações e isso tomou o meu tempo de uma forma que, no começo deste ano, tive de deixar a faculdade um pouco de lado. Acho que fiz duas, três matérias e depois não consegui mais engrenar. As minhas funções no tênis são muito atuais, não dá para esperar cinco, dez anos. Tenho de estar próximo neste momento agora. A tendência é cada vez encontrar mais desafios dentro do tênis.

O Carlos Moyá (ex-nº 1) falou que o duelo que ele gostaria muito de ver no saibro seria Nadal contra Guga. Você já deve ter pensado muito como seria um jogo desses, não?

Esta ansiedade me atinge também. Gostaria muito de ter enfrentado o Nadal algumas vezes. Seria uma coisa natural na minha carreira se não tivesse a lesão. Sinto muito pesar de não tê-lo enfrentado. Não tenho dúvida alguma que ele me provocaria a melhorar. Hoje quando estou assistindo a um jogo dele já imagino maneiras de enfrentá-lo. Criaríamos uma rivalidade de dois caras muito competitivos que hoje está um pouco restrita a ele e ao Federer. Se tivesse que acrescentar alguma coisa na minha carreira, seria um jogo contra Nadal.

Do Roger Federer você já ganhou. Será que ganharia do Nadal?

No início ele teria a vantagem de estar surgindo. Depois eu teria que me aprimorar mais e equilibraria os confrontos.

Você já pensou em jogar o circuito sênior?

Por enquanto ainda não. Para o ano que vem, penso em estar um pouco mais disposto a um número maior de partidas. Quem sabe possa até entrar um pouco mais nesse lado competitivo. Por enquanto ainda faz muito pouco tempo que saí do circuito. Não tenho esta atração. Mas conforme aumenta o tempo da minha parada aumenta minha necessidade por mais competição.

Você já imaginou fazer uma exibição com um cara como o Nadal?

As exibições sempre vão variando a partir do que conseguir mostrar dentro de quadra. Fiquei bastante satisfeito com meu jogo com o Kafelnikov (a quem venceu numa exibição em agosto em Florianópolis) porque consegui mostrar um nível alto. Então surgem estes desejos de enfrentar qualquer cara do circuito. Tenho uma deficiência específica do meu físico, então não posso jogar com tanta frequência, mas isso me faz bem. Cada vez me sinto melhor quando jogo estas partidas. A tendência, como não posso jogar tanto, é buscar jogos com um impacto maior para poder saborear bem, para valer a pena todo o afinco da preparação. Porque requer uma dedicação muito grande minha para poder jogar. Mas entrar em quadra para um jogo é uma recompensa que vale a pena.

Carreira vitoriosa. Guga surpreendeu o mundo do tênis ao conquistar Roland Garros, em 1997, quando estava apenas na 66ª colocação do ranking. Três anos depois, consolidado entre os top 10, repetiu a dose nas quadras de saibro de Paris e terminou o ano como

número 1. Ainda foi campeão do Grand Slam outra vez, em 2001.

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