Arquivo/AE - 4/12/2000
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Há 10 anos, Guga tornava-se campeão mundial

Tenista brasileiro superou o norte-americano André Agassi na final do Masters de Lisboa

ROSE SACONI - Arquivo Estado ,

03 de dezembro de 2010 | 10h30

SÃO PAULO - No dia 3 de dezembro o tenista brasileiro Gustavo Kuerten, o Guga, tornou-se o número 1 do mundo no ranking dos campeões do tênis, depois de vencer Andre Agassi por 3 sets a 0 (6/4, 6/4 e 6/4), na final do Masters Cup de Lisboa, na última partida do ano 2000.

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Emocionado, Guga envolveu-se na bandeira brasileira para falar de uma semana inesquecível em Lisboa, em que superou problemas físicos e adversários fortes. A conquista de Guga foi histórica para o Brasil que nunca havia tido um tenista líder do ranking mundial.

"Ser número 1 do mundo é a realização de um sonho", disse Guga ao repórter enviado especial do Estado, logo após a partida. "É uma emoção inacreditável", prosseguiu. "Tive várias chances de ser o número 1 durante o ano e acabei conquistando a posição justamente no último jogo da temporada."

Ainda na quadra, Guga fez questão de dedicar a vitória histórica à mãe, Alice. Não se importou com o protocolo da cerimônia de entrega de prêmios e foi até o box onde ela estava para um abraço emocionado. "Acho que este é o dia mais feliz da minha vida", resumiu Guga.

Alegre e descontraído, como sempre, Guga estava radiante e chegou para a entrevista coletiva após o jogo com o troféu em uma mão e uma garrafa de champanhe na outra.

"Quando era criança e comecei a jogar tênis, jamais imaginei que poderia ganhar um título de Grand Slam, chegar a um Masters e, muito menos, sair da competição como o número 1", contou Guga. "Nas minhas primeiras raquetadas, em Florianópolis, era um garoto desengonçado, meio sem jeito para o esporte", prosseguiu. "Só fui acreditando aos poucos que poderia ir longe, pois nunca havia jogado um torneio grande no Brasil e precisei sair para o mundo para arriscar a sorte", lembrou. "Só consegui bons resultados por causa da minha vontade, mas, enfim, sou o melhor do mundo.

A história de Guga e seu técnico Larri Passos tinha tudo para não dar certo. Quem jogava com estilo na casa dos Kuerten era o irmão mais velho, Rafael, que teve de ajudar a mãe quando o pai morreu. Aldo, que trabalhava com esquadrias de alumínio, teve um enfarte fulminante quando atuava como juiz de cadeira em uma partida de tênis em Curitiba. A responsabilidade de ser o único tenista da família ficou para o pequeno Guga, então com seis anos.

Larri era um técnico mal visto no tênis brasileiro depois de ter estourado Marcus Vinicius Barbosa, o Bocão. Após chegar às semifinais da chave juvenil de Wimbledon, em 1988 e, naturalmente, ser guindado à condição de ‘maior esperança’ do tênis brasileiro, o catarinense Bocão começou a sentir dores no pulso direito. O técnico achou que não era nada grave e continuou forçando nos treinamentos. O resultado foi uma cirurgia delicada que, entretanto, não conseguiu recuperar todo o movimento do pulso e forçou Bocão a abandonar prematuramente a carreira.

Adolescência. Aos 13 anos, Guga ia sozinho treinar em Camboriú, onde ficava a academia de Larri. Passava a semana toda lá, treinando duro durante o dia e à noite dormindo em um colchonete no chão do pequeno apartamento do técnico. Após quatro meses, Larri resolveu mudar-se para Florianópolis e investir todo o seu tempo no garoto.

Quando ganhou Roland Garros em 1997 e se referiu a Larri como "meu pai, meu tudo", Guga certamente estava lembrando as noites dormidas no chão, quando só mesmo ele, Larri, a mãe Alice e o irmão Rafael confiavam que aquele esforço daria certo. Mesmo o título juvenil de duplas em Roland Garros, em 94 (com o equatoriano Nicolas Lapenti), não queria dizer que a história de Guga seria diferente. Não ficou no quase.

Em 1996, com 19 anos, Guga terminou o ano como 88.º colocado do ranking, mas até aí muitos brasileiros tinham conseguido. Pareceu coincidência conquistar seu primeiro título em um challenger de Curitiba, mesmo cidade onde seu pai morreu. Um mês depois jogou venceu Roland Garros, conseguindo o milagre de ser, segundo Thomaz Koch, o "o primeiro brasileiro a não ficar no quase".

Terminou 97 como o 14º do mundo, mas a demora em ganhar novo título fez muitos o definirem como mais uma promessa perdida. Caiu para 23º em 98, mas a partir de 99 se firmou entre os dez mais, voltou a vencer Roland Garros em 2000 até conquistar o Masters e tornara-se o primeiro tenista brasileiro a liderar o ranking mundial.

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