Há 16 anos, Fenômeno estreava do outro lado

Primeiro jogo de Ronaldo no Brasileiro foi com a camisa do Cruzeiro, contra o Corinthians, no Mineirão

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2009 | 00h00

No feriado de 7 de setembro de 1993, o Fenômeno ainda era Ronaldinho, um garoto dentuço que se preparava para estrear no Campeonato Brasileiro. Com apenas 16 anos, fazia sua 10ª partida como profissional e já era titular da camisa 9 do Cruzeiro. Na estreia pelo Brasileirão, o jovem atacante não conseguiu desenvolver seu melhor futebol e o time mineiro foi derrotado, por 2 a 0, em pleno Mineirão, pelo Corinthians, com gols de Tupãzinho e Leandro Silva. Hoje, 16 anos depois, a preocupação da defesa celeste tem um nome familiar. Comandando justamente o ataque corintiano, Ronaldo volta ao estádio da Pampulha para enfrentar pela primeira vez o clube que de fato o revelou. "Ele estava muito ansioso. Tinha idade para jogar no infantil, no juvenil, no júnior e já estava no profissional", lembra Carlos Alberto Silva, então treinador do Cruzeiro. Na ocasião, o ex-técnico da seleção comentava entusiasmado com um colega sobre as qualidades do garoto. "Eu não vi nada", provocou o colega ao fim da partida.Mas a impressão de quem acompanhou Ronaldo no Cruzeiro é completamente diferente. De maneira meteórica, o jovem que trocou o modesto São Cristóvão pela Toca da Raposa passou a ostentar o rótulo de craque. Chegou a disputar a Taça BH de Futebol Júnior, mas rapidamente ascendeu ao time profissional. Em pouco mais de um ano, de maio de 1993 a agosto do ano seguinte, atuou em 58 jogos e marcou 56 gols, uma média 0,97 gol por partida, o que o fez ser comparado a Pelé. Chegou à seleção e ganhou a Copa de 1994, com apenas 17 anos. Até ser vendido para o PSV Eindhoven, da Holanda, por US$ 6 milhões, Ronaldo deixou um saldo de curiosas histórias e atuações memoráveis. Um dos mais antigos dirigentes do Cruzeiro, o supervisor de futebol Benecy Queiroz, lembra de quando o garoto da seleção brasileira infantil foi oferecido pelo empresário Léo Rabello ao o presidente César Masci. "O Léo já o tinha oferecido para vários times do Rio, mas nenhum deles havia se sensibilizado." Ronaldo foi lançado no time profissional pelo técnico Pinheiro - num jogo contra a Caldense, pelo Mineiro, em maio de 93 -, mas se tornou titular quando Carlos Alberto Silva assumiu. Sua grande oportunidade foi durante um torneio em Portugal. O treinador reclamou que só tinha um jogador para a posição, o centroavante Toto. "Tem o Ronaldinho da base, ele está numa fase excepcional e acho que merece uma oportunidade", sugeriu então o supervisor de futebol. Carlos Alberto Silva relutou, mas aceitou. "Em Portugal ele decolou e mostrou todo o seu potencial. Quando voltou, já era titular do Cruzeiro." Após receber definitivamente o colete de titular em um treino, Ronaldo levou a sério o conselho do já veterano e ex-zagueiro da seleção, Luisinho, na época no Cruzeiro. "Meu filho, oportunidade com 16 anos como titular do Cruzeiro, é uma em mil. Então vê se agarra essa aí." Por nove meses, Ronaldo morou na Toquinha, alojamento anexo ao principal, na Toca da Raposa I. Para atuar como profissional, chegou a ter na carteira de trabalho o registro de torneiro mecânico. Foi a saída que o clube encontrou para legalizá-lo na Federação Mineira de Futebol. O jovem havia interrompido os estudos. Pela lei, como era atleta da categoria de base, para participar de competição oficial precisaria comprovar que trabalhava ou estudava. "Ele assinou a carteira como sendo funcionário do Faustão (Fausto Queiroz, ex-diretor do Cruzeiro) para que pudesse fazer o contrato profissional conosco, dado a idade dele", explicou Benecy. Mas Ronaldo mostrou que sua maior vocação sempre foi fazer gols. No Mineirão, fez história com a camisa celeste. Como na goleada por 6 a 0 sobre o Bahia, pelo Brasileiro de 1993, quando marcou cinco vezes. Num dos gols, aproveitou a bobeada do experiente goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez, que largou a bola e o esperto garoto não perdoou. No primeiro clássico como titular contra o Atlético-MG, fez os três gols da vitória por 3 a 1 - jogo marcado pela sequência de dribles no zagueiro Kanapkis, então da seleção uruguaia. Na disputa da Taça Libertadores de 1994, contra o Boca Juniors, conduziu a bola do meio de campo e driblou toda a defesa argentina, marcando o gol da vitória e da classificação. Já era, definitivamente, o Fenômeno em ação.

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