Arquivo Estadão
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Há 45 anos, a luta pelos direitos civis subia ao pódio da Olimpíada do México

Tommie Smith e John Carlos, ouro e bronze nos 200 metros dos Jogos de 1968, protestaram contra a discriminação racial nos EUA

Amanda Romanelli, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2013 | 07h40

SÃO PAULO - O cronômetro do estádio olímpico da Cidade do México marcou o tempo de 19s83 nos 200 metros rasos. Tommie Smith, que já era recordista mundial da prova em linha reta (sem a curva das pistas), acabara de se tornar campeão olímpico dos Jogos de 1968, há 45 anos, como o homem mais rápido do mundo na distância. Mas a vitória do americano nascido em Clarksville, no Texas, acabou em segundo plano quando ele, o australiano Peter Norman e seu compatriota John Carlos subiram ao pódio para receber suas medalhas.

 

A imagem é conhecida mundialmente: Smith sobe no lugar mais alto do pódio descalço, com meias pretas, e segurando o par de tênis com a mão esquerda. Assim que todos alinham para ouvir o hino nacional americano, o campeão e o terceiro colocado abaixam a cabeça, em vez de erguê-la em sinal de respeito. Mas sobem os braços - direito, de Smith, e esquerdo, de Carlos -, com os punhos cerrados, mãos vestidas com uma luva preta. Foi o primeiro protesto político nos Jogos Olímpicos, protagonizado por dois negros americanos cansados da discriminação racial de seu país. Era a saudação "Black Power" no pódio.

 

Uma parte pouco conhecida da história é que Norman, medalha de prata e branco, apoiou o protesto dos americanos. "Eu era simpático à causa deles e por isso me tornei parte", disse o ex-velocista, que morreu em 2006, de ataque cardíaco. "Ele não ergueu seu punho, mas nos estendeu a mão", afirmou Smith. Foi de Norman a ideia de que os americanos dividissem o único par de luvas disponível - por isso um levantou o braço direito e o outro, o esquerdo. Os três mantiveram contato até a morte do australiano. Ele também usou no peito uma insígnia com a inscrição "Projeto Olímpico para os Direitos Humanos".

 

Foi o Projeto Olímpico para os Direitos Humanos, associação criada pelo professor de sociologia Harry Edwards, que deu origem ao envolvimento de atletas negros americanos pela luta dos direitos civis no país. Edwards lecionava na San Jose State University, na Califórnia, universidade em que Smith e Carlos eram bolsistas. A discussão sobre a possibilidade de um boicote começou ainda em 1967, quando a associação foi formada.

 

 

Um dos entusiastas era o jovem astro do basquete universitário americano Lew Alcindor - mais tarde, conhecido como Kareem Abdul-Jabbar, após sua conversão ao islamismo. No encontro que fundou a associação, ele discursou: "Eu sou uma estrela do basquete, um herói. Mas, no verão passado, eu quase fui morto por um policial racista, que atirou em um gato preto no Harlem. Ele estava atirando nas ruas, onde passam centenas de pessoas, mas nem se importou. Afinal, somos todos pretos." Alcindor (ou Jabbar) optou por um boicote solidário e não foi à Olimpíada da Cidade do México.

 

O ano de 1968 foi um dos mais marcantes da história contemporânea. A guerra do Vietnã estava em andamento, a Revolução Cultural ocorreu na China, os soviéticos invadiram a Tchecoslováquia. Não faltaram marchas pelos direitos humanos e revoltas estudantis em todo o mundo, incluindo o México. Dez dias antes do início da Olimpíada, o Exército do país reprimiu violentamente um protesto de estudantes na Praça das Três Culturas, na capital. No confronto que ficou conhecido como o Massacre de Tlatelolco, centenas de pessoas foram mortas.

 

Smith e Carlos, por fim, não optaram pelo boicote - apesar de o movimento negro ter sofrido, poucos meses antes dos Jogos, com o assassinato de Martin Luther King. Foram à Olimpíada e decidiram protestar diante de milhares de pessoas no Estádio Nacional e milhões de espectadores em todo o mundo.

 

Na entrevista após o pódio, Carlos não poupou palavras. "Eles (os brancos) nos consideram como animais, como baratas ou formigas. Quero que publiquem isto exatamente como estou dizendo", afirmou aos jornalistas. "Se os brancos não gostam de negros, não deveriam ter vindo ao estádio. Mas somos como cavalos de circo. Aplaudem, nos dão amendoim. Se ganhamos, é uma vitória norte-americana. Se perdermos, é um negro derrotado."

 

A atitude teve repercussão imediata: eles foram expulsos da Olimpíada. Tiveram que deixar a Vila Olímpica e tiveram os vistos de permanência no México cancelados. O Comitê Olímpico Internacional (COI) condenou a atitude dos velocistas, que, segundo a entidade, cometeram "um abuso indevido do prestígio da competição esportiva, visando a promoção de opiniões políticas domésticas."

 

Fora dos Jogos, Smith e Evans ainda convenceram os colegas do revezamento 4 x 400 metros a permanecerem na competição - Lee Evans (também aluno da San Jose State), Larry James e Ron Freeman queriam abandonar os Jogos. Mas correram, venceram, e no pódio, utilizaram as boinas que eram um símbolo dos Panteras Negras. Ao serem questionados sobre o acessório, Evans respondeu de maneira irônica: "Era para me proteger da chuva".

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