Há cem anos, nascia um mito do atletismo: Jesse Owens

Neto de escravos, americano ganhou quatro ouros na Olimpíada de 1936 e derrubou a tese do arianismo de Hitler

AMANDA ROMANELLI, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Há cem anos, em 12 de setembro de 1913, numa pequena casa de madeira de Oakville, cidade do Estado do Alabama, nascia James Cleveland, o sétimo dos dez filhos do casal Henry e Mary Emma Owens. Pouco mais de duas décadas depois, o neto de escravos, de infância em meio aos campos de algodão e milho, entraria para a história como Jesse Owens, campeão de quatro provas na Olimpíada de Berlim, o homem que derrubou a teoria de Adolf Hitler sobre a supremacia da raça ariana.

Jesse, como se viu, nasceu como James Cleveland - e era carinhosamente chamado pela família de JC (na pronúncia em inglês, djeicí). O apelido que carregou pelo resto da vida surgiu em um momento de constrangimento do futuro astro do atletismo. Quando ele tinha nove anos, sua família deixou o Alabama rumo a Cleveland, em Ohio. Foi quando, em seu primeiro dia de aula na Bolton Elementary School, a professora perguntou seu nome. Com seu sotaque sulista, respondeu JC. A professora entendeu Jesse - Jesse Owens. E assim ficou. "Eu estava muito tímido. Era a primeira vez que eu estava em uma escola mista".

A questão racial permeou a vida de Jesse Owens, que foi louvado como o homem que enfrentou Hitler. Biógrafos do atleta, contudo, fazem questão de pontuar que o próprio atleta viveu em um ambiente de total discriminação. Eram tempos de segregação nos EUA. Owens morreu de câncer no pulmão, em 1980, aos 66 anos, e só no fim da vida admitiu ter sido vítima de discriminação em seu próprio país. Em 1968, na Olimpíada do México, ele condenou publicamente o protesto de Tommie Smith e John Carlos, que subiram ao pódio com os punhos fechados, uma saudação do movimento Black Power a favor dos direitos civis dos afro-americanos. Mais tarde, retratou-se.

"Depois de todas aquelas histórias sobre Hitler e como ele me esnobou, voltei para o meu país, um lugar onde eu não podia sentar na parte da frente de um ônibus", lembra. "Eu tinha que ir para o fundo. Eu não podia viver no lugar que eu quisesse. Então, qual era a diferença (entre a Alemanha nazista e os EUA segregacionista)?", questionou.

Assim que voltou de Berlim, com as medalhas de ouro dos 100 m, 200 m, 4 x 100 m e salto em distância, Owens desfilou pelas ruas de Nova York e recebeu uma chuva de papéis picados. Quando chegou ao hotel Waldorf Astoria, um dos mais luxuosos da cidade, onde seria homenageado em uma recepção, foi instruído a utilizar o elevador de serviço. Os elevadores sociais eram reservados para as pessoas brancas. Apesar de seu feito, Owens nunca foi chamado à Casa Branca. Nem sequer recebeu os cumprimentos do então presidente Franklin Roosevelt.

UM FENÔMENO DAS PISTAS

Jesse Owens foi descoberto para o atletismo quando estava no ensino médio, na Fairmount High School, pelo professor Charles Riley, que viria a ser seu primeiro técnico. A dedicação exclusiva à modalidade começou em 1930 e, dois anos depois, o jovem velocista disputou as seletivas para a Olimpíada de Los Angeles. Mas, aos 19 anos, não conseguiu se classificar em nenhuma das provas a que se candidatou - 100 m, 200 m e salto em distância.

O início de sua brilhante trajetória, em termos de resultado, foi em 1933. Owens venceu 75 das 79 provas que disputou, e bateu o recorde mundial das 100 jardas, que correu em 9s40. Depois de tantos bons resultados, recebeu inúmeras ofertas de bolsa de estudos - paralelamente à escola, ele trabalhava como engraxate. Sua escolha foi a Ohio State University. "Era perto de casa e foi onde meu técnico (ainda Riley) disse que eu deveria ir", afirmou.

 

Mesmo com seus resultados no atletismo e disputado por universidades, Owens não teve privilégios. Ele ajudava a família trabalhando como ascensorista, das 17h à 1h. "Era dentro do elevador que eu conseguia estudar", lembrou. Além disso, a Ohio State tinha apenas um dormitório masculino, e Owens foi barrado por sua cor. Ele precisou dividir um apartamento com outros estudantes negros, onde eles próprios cozinhavam. Nenhum restaurante ao longo da rua atendia os estudantes, que também não podiam ir ao cinema. Sem opção de lazer, restava a Owens treinar.

Em 1935, veio o prenúncio do que seria a campanha do atleta na Olimpíada do ano seguinte. Em um campeonato universitário, chamado Big Ten, Owens venceu quatro provas em um intervalo de apenas 75 minutos - o salto em distância, as 100 jardas, as 220 jardas e as 220 jardas com barreiras. Em todas, ganhou com recordes mundiais. Àquela altura, Owens já estava casado com Ruth, ex-colega da Fairmount. Em agosto de 1932, nascera sua primeira filha, Gloria. O casal ainda teria mais duas garotas: Marlene, nascida em 1937, e Beverly, em 1940.

A OLIMPÍADA

A polêmica com Hitler e a política racial da Alemanha Nazista só fez crescer o mito em torno de Owens. A lenda diz que o Führer, inconformado com a conquista de quatro medalhas de ouro por um negro, deixou o Estádio Olímpico enfurecido e se negou a cumprimentar Owens. A versão que entrou para a história tem sido contestada, entretanto. Há quem diga que o americano recebeu os cumprimentos de Hitler longe do pódio, nas tribunas. Jornalistas alemães disseram, posteriormente, que havia até o registro em foto deste momento.

De qualquer maneira, a Olimpíada de Berlim foi o grande momento da carreira de Owens. Não só pelos títulos - além dos ouros, ele bateu os recordes mundiais dos 200 m e do salto em distância -, mas também por ter sido a sua única participação olímpica. Assim que retornou aos EUA, Owens passou a fazer exibições em troca de dinheiro. Àquela época, isso era considerado profissionalismo, em oposição aos ideais amadores do esporte. O velocista disputou provas contra atletas de outros esportes, contra carros, motos, cachorros e até cavalos - isso aconteceu em Cuba, no fim de 1936, e a vitória lhe rendeu US$ 2 mil.

Por causa dessas atividades, foi expulso da Associação Amadora de Atletismo. "As pessoas diziam que eram atividades degradantes para um campeão olímpico. Mas o que eu poderia fazer? Eu tinha quatro medalhas de ouro, mas tinha que comer", afirmou. "Eu voltei para casa, ganhei tapas nas costas, apertos de mão, mas ninguém me ofereceu um emprego."

Depois das corridas contra qualquer oponente disponível, Owens se aventurou em uma série de atividades profissionais: foi monitor de crianças em jardins de infância, frentista e abriu uma lavanderia, que faliu. Depois de anos, Owens conseguiu se estabilizar como um homem de relações públicas, participando de vários projetos promocionais. Pôde, então, se engajar em trabalhos voluntários e programas do governo. Nos anos 1950, virou embaixador do Departamento de Estado em um trabalho de "boa vizinhança". Viajou para países como Índia, Malásia e Filipinas para ensinar atletismo.

Nos Jogos Olímpicos de 1956, em Melbourne, foi o representante do presidente Eisenhower. Na ocasião, em entrevista exclusiva ao Estado, afirmara ser grande admirador do saltador brasileiro Adhemar Ferreira da Silva, que se tornaria bicampeão olímpico do salto triplo. "Eu mesmo experimentei o salto triplo, e nunca pude estabelecer qualquer marca boa. Faz muita falta a carência de qualidades especiais e de 'molas nas pernas'", disse o mito olímpico.

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