Juan Mabromata/AFP
Juan Mabromata/AFP

'Há no Japão uma superproteção ao deficiente físico', diz brasileiro do COI

Presidente do Comitê Paralímpico Internacional, Andrew Parsons fala sobre preparação do Brasil para os Jogos de Tóquio

Paulo Favero, enviado especial / Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2018 | 05h00

O brasileiro Andrew Parsons foi oficializado como o mais novo membro do COI (Comitê Olímpico Internacional). O presidente do IPC (Comitê Paralímpico Internacional) conversou com o Estado e contou sobre seus planos, os preparativos para os Jogos de Tóquio e os pilares que dão o rumo para sua gestão de um ano e um mês na principal entidade paralímpica mundial, que tem um orçamento de 20 milhões de euros por ano. 

Você acaba de se tornar membro do COI. Qual será seu papel lá?

Eu já fazia parte de algumas comissões, tenho participação grande no movimento olímpico, obviamente que me tornar membro isso se amplia, e no Brasil automaticamente eu viro membro da assembleia do comitê olímpico local que é o COB. Já falei com o Paulo Wanderley sobre isso no passado, ele sempre deixou o espaço aberto para eu participar e ajudar. Acho que fiz um bom trabalho no CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) e acredito que possa contribuir com novas ideias e conceitos.

Qual a sua avaliação dos Jogos Olímpicos da Juventude até agora?

O bom dos Jogos da Juventude é poder experimentar, é ser ousado em coisas que talvez você não pudesse fazer nos Jogos Olímpicos. Achei interessante a abertura no meio da cidade, foi criativa, e fazer isso foi muito corajoso do Comitê Organizador daqui. É importante testar novos formatos, novas modalidades, conceitos, e despertar o interesse do esporte no jovem, se comunicando com ele numa linguagem que ele entenda.

É possível criar os Jogos Paralímpicos da Juventude?

Na minha campanha me comprometi trazer esse diálogo. Ajudei a criar os Jogos ParaPan de Jovens, que vai para sua quinta edição. Mas os membros do IPC não querem Jogos Paralímpicos da Juventude, eles querem evento regionais e continentais, que são mais próximos dos países.

Como está a organização dos Jogos de Tóquio?

Vai bem. Eu fiz parte da avaliação dos Jogos de 2020 e conheço bem o projeto, desde 2013. A gente vem acompanhando o progresso. É um parceiro muito sólido do ponto de vista financeiro e tem uma visão do que eles querem dos Jogos muita clara. O Japão é um país que a legislação para deficientes é muito avançada, mas você não vê deficientes na rua. Existe uma cultura de super proteção de não estimular as pessoas com deficiência a trabalharem, a irem para a rua, a exercitar cidadania.

Então qual será o desafio de vocês?

O sistema de transporte é bastante acessível, principalmente em Tóquio, então é um contra-senso. No Japão, o fundamental é a cabeça das pessoas. Estamos implementando programas nas escolas, com experimentação, para criar uma nova geração de japoneses que vão respeitar, mas não vão super proteger. O bom é que o Comitê Organizador e as autoridade de Tóquio reconhecem isso. Nosso maior legado lá é esse. Queremos que os Jogos sejam um sucesso.

Você foi eleito para o mandato no IPC e quer implementar cinco prioridades. Quais são elas?

1 - DESENVOLVER OS MEMBROS

Desenvolvimento dos membros, principalmente comitês paralímpicos nacionais de países em desenvolvimento. Quando entrei no CPB em 1997 a gente tinha orçamento zero e quando saí já tinha um orçamento robusto, centro de treinamento, o Brasil se consolidou no top 10, o que não é fácil, então penso ter a experiência para apoiar outros países. A ideia é levar todos para um próximo nível de desenvolvimento. A gente tem concentração grande de medalhas nos top 20 do mundo e queremos mudar um pouco essa ordem. No fim das contas, eles que oferecem os programas e as estruturas para os atletas.

Também pretendo trazer mais junto e ser mais pró-ativo nessa relação. Quero ir ao países para fazer isso. No meu primeiro ano fui a 30 países e essa conta vai aumentar em 2018. Fui para os EUA, mas fui para o Malaui, Cingapura, Malásia... Vou para a Eslovênia, Armênia, Azerbaijão, Geórgia. A ideia é entender melhor as realidades dos países e construir relacionamento.

2 - RELACIONAMENTO COM O MOVIMENTO OLÍMPICO

Firmamos acordo com o COI até 2032 e garantimos a estabilidade financeira do movimento paralímpico internacional. A gente busca patrocinadores em conjunto, recebe contribuição financeira direta do COI. O IPC está mais alinhado com as novas normas e agenda 2020 e queremos tornar os Jogos mais racionais, mais baratos, porque temos a preocupação com a possível falta de candidatos a receber os Jogos no futuro, principalmente a Olimpíada de Inverno.

3 - CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL

Pode ser o nosso calcanhar de aquiles, mas pode ser a joia da Coroa. É isso que permite nosso movimento funcionar, ou seja, equilibrar o nível de deficiência do atleta para que a gente possa ter uma competição justa. Quero profissionalizar esse sistema, os classificadores são voluntários no mundo. Trazer mais ciência para o esporte, tirar a classificação das competições, para diminuir a pressão sobre os atletas, e criar centros de referência no mundo.

4 - POSICIONAMENTO

É uma soma de elementos como marca, mas também com as causas e organizações que a gente se associa. Você vai ver o IPC se aproximando cada vez mais de uma agenda de direitos humanos.

5 - FUNDAÇÃO AGITOS

É o nosso braço de fomento, tem uma área para levantar recursos, para desenvolver o esporte em várias partes do mundo. Além disso, temos esse papel de federação internacional para 10 modalidades e vamos ter de tomar uma decisão crucial sobre esse modelo. Nesse momento estamos num processo de revisão de nossa estrutura de governança.

 

 

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