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Antero Greco
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Haja conspiração!

Papo repetitivo esse de ver conspiração em tudo. Vá lá que, no nosso dia a dia, estejamos rodeados de mutretas dos mais variados calibres e que englobam de altas decisões nacionais a atividades prosaicas. Vira pra cá, vira pra lá, topamos com algum arranjo maroto. Por isso, ficamos na defensiva e sempre a achar que há algo escuso por trás de um fato que fuja à rotina.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2014 | 02h04

Pra trocar em miúdo e trazer o assunto pro futebol: encheu a paciência ouvir a conversa de que este ou aquele campeonato está comprado, ou vendido, de que tal ou qual resultado não passa de falcatrua, de que fulano ou sicrano entregou. Tudo parece previamente definido e acertado fora das quatro linhas, como certas licitações oficiais fraudulentas que os jornais vira e mexe desmascaram.

O tema do dia se concentra na desclassificação de São Paulo, Fluminense e Internacional na Copa do Brasil. Na opinião dos farejadores de irregularidades, o trio de gigantes nacionais na maior cara dura largou mão - ou pé - do torneio doméstico para garantir vaga na Sul-Americana. Eles teriam se beneficiado de brecha aberta nos critérios de classificação da CBF para optar pela competição que mais lhes conviesse. Nessa estratégia se concentraria a explicação para o fiasco diante de Bragantino, América-RN e Ceará, equipes que transitam pela Segunda Divisão.

Assim como você, também não confio em muita gente metida no esporte. Faz bem pra saúde e pra moral manter atitude cética e filtrar o discurso. A boa fé nos faz parecer bobos, porém alto lá, sem exageros. Da mesma forma, duvidar demais vira paranoia e leva a conclusões grosseiras, toscas, fúteis. Lembra da boataria que dava como certa a conquista do hexa? O Brasil levantaria a taça, em 13 de julho, pois era o combinado. Teve formador de opinião que garantiu ter provas irrefutáveis da farsa. Faltou combinar com a Alemanha...

Coloco em idêntico balaio a cantilena a respeito do comportamento de tricolores, paulista e carioca, e colorados gaúchos na quarta-feira. O trio deu vexame, fez fiasco, parou no meio do caminho de maneira vergonhosa e humilhante. Não teve competência para impor-se e sucumbiu ante adversários franco-atiradores e que se valeram de garra. Vão para a Sul-Americana? Ok. E quem lhes dá a garantia de que atropelarão os gringos? Ou ignoram o risco de papelão contra argentinos, uruguaios, colombianos, paraguaios?

Burrice e comodismo alegar maracutaia. Se o São Paulo quisesse livrar-se da Copa, perderia na ida para o Bragantino, em vez dos 2 a 1 a seu favor. Também não faria 1 a 0 no Morumbi. Levou a virada de 3 a 1 por erros, individuais (de Rogério Ceni, por exemplo) e coletivos. Jogou mal. O vacilo do Flu foi ainda mais constrangedor: lascou 3 a 0 em Natal, estava com 2 a 1 no Maracanã até tomar a sova de 5 a 2. Não seria mais inteligente se enrascar já no Rio Grande do Norte? Pra que toda a encenação? O Inter precisou dobrar-se em Porto Alegre e em Fortaleza.

Os tropeços podem entrar na conta das surpresas que a Copa do Brasil apronta, para o nivelamento do futebol destas bandas, para a fragilidade dos elencos e daí por diante. Para o torcedor talvez doa menos achar que a derrota foi proposital do que admitir a inaptidão da equipe.

Ilusão tola. Considero horrível a hipótese de que jogadores e treinadores traíram a confiança do fã que esteve no estádio, ou sofreu em casa, em nome de uma artimanha, de uma bem bolada saída para voo maior. Se agem assim, supostamente para o bem, quem garante que amanhã não farão corpo mole para prejudicar o clube? Onde ficam amor próprio e profissionalismo?

Enquanto aturarmos o consenso de que as coisas se resolvem na base da malandragem, seremos coniventes e tapados ao mesmo tempo. Porque, no fundo, nos tratarão como trouxas, mesmo que tenhamos a sensação de que, de algum jeito, levamos vantagem. Isso vale para a política, para o trabalho e para o futebol. E quer saber mais? Quem torce de verdade, só quer vitórias. Sempre.

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