Fabio Motta/AE
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Havelange tenta manobra para dar força a Nuzman até os Jogos em 2016

Dirigente admite que a construção dos estádios para 2014 está atrasada, culpa governos pelo Pan e volta a pedir implosão do Maracanã

Bruno Lousada, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2011 | 00h00

Presidente de honra da Fifa e membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 1963, João Havelange, de 94 anos, admitiu ao Estado que vai tentar uma manobra para manter o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, na Assembleia Geral do COI, que tem 108 membros. Nuzman está com 68 anos e a idade limite é de 70. Havelange pretende prorrogar a permanência de qualquer dirigente no COI até os 78 anos. Assim, Nuzman teria acesso livre no comitê internacional até os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016.

"Ele sendo da Assembleia, tendo os Jogos Olímpicos aqui, é importantíssimo", disse Havelange, em seu escritório, no centro do Rio. Na quarta-feira, num evento em Ipanema, zona sul da cidade, será lançado o livro João Havelange - O dirigente esportivo do século XX, pelo selo COB/Cultural. "Foi uma surpresa e uma gentileza do Nuzman", admitiu.

Como recebe a homenagem?

Eu faltaria com a verdade se dissesse que sabia que o livro estava sendo feito. Foi uma surpresa e uma gentileza, um sentimento de amizade do Nuzman comigo. Porque foi ele que mandou preparar. Portanto, sou gratíssimo a ele. Em segundo, rever o passado, principalmente meus pais, meus irmãos, enfim, a minha juventude no Fluminense, foi uma felicidade. O livro me trouxe belas recordações.

O senhor alcançou muito poder e prestígio no esporte. Ainda sonha em realizar algo?

Há um sonho que gostaria de realizar e não consegui porque meu mandato terminou. Era fazer um jogo de futebol das seleções de Israel contra a Palestina. Minha vontade é fazer o jogo em Nova York, onde está a ONU e convidar todos os chefes de estado. Na preliminar, a seleção brasileira enfrentaria os Estados Unidos. Outro desejo é fazer um jogo em Seul e outro em Pohang entre o combinado da Coreia do Sul e Coreia do Norte contra o Brasil.

Como vê o trabalho atual do Brasil para sediar o Mundial de 2014? Não deveríamos ser mais rápidos?

Eu não devo me meter nisso, mas, o senhor me perdoe, a Fifa só faz (a Copa) depois de ter entendimento com o governo. O governo é quem tem de fazer a segurança, rever os aeroportos e verificar os estádios. A CBF entra com sua equipe e sua organização. Pergunto: mexeram nos aeroportos? Não. Mexeram nas estradas? Não.

A construção de estádios não está mais lenta do que o normal?

Eu acho que sim, mas o que posso fazer? O governo é quem tem de fazer, o senhor me perdoe, porque estamos em 2011 e a Copa será em 2014. Sei que, atualmente, a parte técnica de uma construção é muito valiosa e rápida. Mas tem um limite também. Não é verdade? Certa vez, disse que o Maracanã deveria ser implodido e fui muito maltratado.

O senhor continua a favor de um outro estádio no Rio?

Não faria ali. Se quiser aumentar para um lado, tem a estrada de ferro. Não pode. Do outro lado, passa um rio. Não pode. Se quiser ir para trás, não pode. Tem uma universidade. O Rio deve ter outro lugar com melhor acesso.

Não há uma preocupação de os estádios da Copa e as instalações da Olimpíada virarem elefantes brancos?

O governo é que tem de ficar preocupado e oferecer ajuda. Por que nos outros países funciona? O que temos de fazer é a nossa gente mudar a mentalidade. Em vez de criticar, usar e dizer que é bom.

Não faltam políticas públicas para estimular o esporte no País?

Quando os EUA montam a sua delegação e partem para os Jogos Olímpicos, o governo já investiu muito dinheiro para a preparação da equipe, enfim para tudo. Se o senhor falar nisso aqui, vai ser uma loucura. Gastar dinheiro é uma necessidade. Para isso, a gente paga imposto, é para reaplicar na massa. Olimpíada e Copa são para a massa.

O Brasil ainda tem muito a caminhar para virar uma potência olímpica?

Evidentemente. Não é fácil. Eu posso dizer que o Brasil está encantado com o Nuzman. O que esse moço trabalha para isso.

A pressão por vitórias na Copa e na Olimpíada vai ser enorme.

Nós só pensamos nisso. Não pensamos no espetáculo. Devemos pensar no espetáculo, no bem que é para a nação. Mas se não ganhar... Isso faz parte do nosso sentimento.

O estouro no orçamento do Pan-Americano de 2007 pode ocorrer novamente na Olimpíada?

Não é isso, meu filho. Vamos esquecer o Pan. O que passou, passou. O dinheiro gasto foi bem gasto.

Mas houve estouro.

Está bem. Houve um erro. Vamos esquecer e recomeçar de maneira diferente.

Muitos equipamentos do Pan caíram em desuso depois dos Jogos e nem sequer foram utilizados regularmente por crianças e adolescentes.

Quem é o culpado? A municipalidade e o Estado. Essa é a verdade. Isso pertence a eles. O governo é que deveria fazer (esse trabalho), assim como a Secretaria de Esporte do município e do Estado. Se tem uma mocidade, por que não oferecer a ela? Está lá para ser utilizado.

O senhor acha que, a médio ou longo prazo, o Brasil terá outro representante no comando da Fifa? Acredita que Ricardo Teixeira está apto a seguir seus passos?

Está apto. É culto, correto e dedicado. Na Fifa, ele é muito apreciado e o futebol do Brasil tem se apresentado com dignidade e valor. O (atual presidente da Fifa, Joseph) Blatter vai ser reeleito em 2011, mas em 2015, se Deus quiser, vai ser o Ricardo. Se eu tiver vivo e com forças, vou ajudá-lo..

O senhor é a favor de renovação de poder no esporte, tanto no COB quanto na CBF?

Renova. Recomeça tudo do zero. O Ricardo (Teixeira) conhece todo mundo na Fifa. Bota um lá. Vai feito bobo. Se puder, ele vai preparando um (substituto). No Comitê Olímpico Internacional (COI), quando (o dirigente) faz 70 anos, tem de sair, porque é a idade-limite. Vou conversar com ele (Jacques Rogge, presidente do COI), e viajarei para o COI, na Suíça, em maio. Em julho, tem assembleia em Durban, na África do Sul. Se eu não passar para 78 (a idade-limite), daqui a dois anos o Nuzman faz 70 e ele é membro da Assembleia Geral. Se o Rogge permitir essa mudança, o Nuzman ganha 10 anos lá. É uma necessidade para o Brasil. Ele sendo da Assembleia, tendo os Jogos Olímpicos aqui, é importantíssimo.

Por quê?

Eu tenho vários defeitos, mas não sou tão burro como você imagina. São 108 membros na assembleia, entre eles 58 são europeus. Quem é que ganha? Para eu ganhar alguma coisa, o que devo ter feito? Habilidade, gentilezas e contatos. Nessa reunião, eu trabalho com meus amigos para passar (mudar o estatuto). Porque ali você toca na sensibilidade de cada um. Por que aqueles que vão sair, se puderem ficar mais oito anos, você acha que vão ser contra? Trato o Nuzman como um irmão mais novo e é lógico que ele quer (ficar no comitê internacional). Além de ser um poder, ele tem uma facilidade para administrar 2016. Ele é da casa, não é? Se tiver fora, quando for ao COI, terá de pedir isso e aquilo. Se tiver o poder, entra sem problema. Completamente diferente.

Como o senhor vê a Fifa atual e o recente escândalo envolvendo as acusações de venda de votos nas eleições das sedes de 2018 e 2022?

Quem é que fez essa denúncia? Sempre os ingleses. Sabe por quê? Estão fora. Sabe quantos votos eles tiveram? Dois. Então é melhor dizer que você é ladrão e eu sou também. Se ganhasse, o senhor seria uma maravilha, tá bom? É isso, ora. Coisa mais fácil é uma blasfêmia, é maltratar os outros. /COLABOROU VALÉRIA ZUKERAN

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