Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Herói sul-africano conta sua história em São Paulo

Chester Williams, um dos jogadores-símbolo da seleção campeã mundial em 95, profere palestras e dá clínicas na cidade

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2014 | 07h00

Chester Williams, o único jogador negro da seleção sul-africana campeã da Copa do Mundo de 1995, não corresponde ao estereótipo mais comum de jogador de rúgbi. Medindo apenas 1,74m, sua função, como ponta ou wing, era finalizar as jogadas com sua velocidade, marcando os tries. Nesta semana, Chester está novamente envolvido com deslocamentos, agora com muito mais vagar, no martírio do trânsito paulistano, que já aprendeu a abominar. O papel do ex-atleta nos “Springboks”, o apelido da equipe de rúgbi sul-africana, ganhou destaque no livro “Conquistando o Inimigo”, de John Carlin, no qual se baseou o roteiro do filme"Invictus", dirigido por Clint Eastwood, que recebeu duas indicações ao Oscar em 2009.

Amanhã, Chester vai ministrar uma clínica para crianças do projeto assistencial “Rugby para todos”, na favela de Paraisópolis. Na segunda-feira, vai proferir a palestra “Sangue, Suor e Lágrimas”, em Moema. Antes disso, visitou a redação do Estado, no Limão. Sua viagem ao Brasil é um investimento do banco que patrocina a Confederação Brasileira.

A convocação de jogadores negros não era comum até 92, devido à vigência da política segregacionista do apartheid. Algumas reportagens publicadas à época da Copa do Mundo de 2010 simplificaram a questão, retratando o rúgbi como um esporte para brancos na África do Sul. “O rúgbi sempre foi um esporte também para os negros no meu país. Meu pai, Wilfred, jogou pela seleção dos negros da África do Sul”.

Williams não se incomoda de dizer que inicialmente foi alvo de piadas racistas de seus companheiros de seleção. O respeito ele conquistou graças às suas habilidades, principalmente a velocidade que o levou a ser reconhecido como um verdadeiro “Springbok”, o simpático antílope que é o símbolo da seleção sul-africana.

Na Copa do Mundo de 95, Williams ainda teve que provar seu valor em circunstâncias difíceis. Por ter se lesionado, só foi estrear nas quartas de final, contra Samoa Ocidental. E marcou logo quatro tries, para sepultar de vez qualquer dúvida que pairasse sobre sua competência.

“Certamente havia muita pressão e expectativa sobre mim. Os brancos achavam que eu não era bom o suficiente e o povo do resto do mundo acompanhava para saber se eu tinha méritos para estar na equipe. E eu também tinha que representar o meu povo, o povo negro, em casa, e com muito orgulho no campo. E fiz isso muito bem, marcando tries, porque eu sabia que a minha chance de justificar por que estava na equipe era aquela. E fiquei lá em cima, com o meu orgulho, minha honra, meu povo, que ficou muito honrado”, diz Chester.

As histórias de Chester são tocantes para audiências em todo o mundo. Não à toa, proferir palestras virou a profissão do ex-ponta de 44 anos, que teve uma curta carreira de técnico na Romênia. Mandela, logicamente, é vários capítulos à parte em sua trajetória, que jamais terá sequer um remoto similar, em sua opinião.

“As circunstâncias em 95 foram perfeitas para nós. Não vamos encontrar uma Copa do Mundo como aquela por causa das circunstâncias, do apartheid. Nelson Mandela se tornou o rosto da África do Sul, fora eleito democraticamente nosso presidente. Você não vai encontrar um presidente mais sábio, popular ou amoroso. E Mandela, com a ajuda dos Springboks, uniu o país – ele pelo lado político e nós pelo esportivo durante a Copa e depois.”

Pouco informado sobre a seleção masculina do Brasil, Chester elogia muito a feminina. “Já tive a experiência de ver a seleção brasileira feminina na Itália. Devo dizer que elas são boas, habilidosas e velozes. Sabem jogar. Sua seleção feminina terá a chance de representar bem o país em 2016”, diz.

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