Heróis e vilões

Tardes de domingo de futebol que se prezem servem para consagrar mitos e condenar vilões. Assim manda a tradição, desde os tempos áureos de A Gazeta Esportiva, Jornal dos Sports e Edição de Esportes. Para não fugir à regra, dois jogadores roubaram a cena e foram decisivos: Rivaldo e Diego Souza. O veterano mito em cima da hora fez o gol de empate do São Paulo com o Botafogo e o irrequieto meia marcou os três do líder Vasco sobre o Cruzeiro. Também para seguir o roteiro, o Palmeiras todo merece bronca, pois conseguiu ceder empate para um Atlético-GO com dois a menos.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h04

O São Paulo passava sufoco no Engenhão, era engolido por um Botafogo atento na marcação e veloz nas arrancadas para o ataque. Não foi por acaso que fechou o primeiro tempo com a vantagem por 2 a 0, gols de Loco Abreu, que na etapa final ainda desperdiçou chance do terceiro. A equipe de Caio Júnior em determinado momento liderava o torneio, beneficiada pela combinação de resultados. Tudo saía à perfeição.

A história começou a mudar no intervalo. Adilson Batista tirou Juan e apostou na experiência de Rivaldo, fonte inesgotável de arte aos 39 anos. O meia transformou o meio-campo tricolor, com seus passes e deslocamentos. A presença de boleiro à moda antiga, dos que demoram a pendurar as chuteiras e encantam mais à medida que se aproxima a aposentadoria, contagiou o time.

Assim como interferiu a segunda alteração - Henrique no lugar de Marlos aos 20 minutos. O campeão mundial sub-20 deixou a marca de artilheiro no primeiro lance, ao aproveitar rebote do goleiro Renan e fazer 2 a 1. O gol incendiou o São Paulo, que pôs o Botafogo grogue e à procura da fluência anterior.

A categoria de Rivaldo deu o tom até o final. O astro que regeu o Brasil em dois Mundiais (é bom lembrar que em 2002 não houve só Ronaldo) ditou o ritmo e foi premiado com o gol de empate, aos 46 minutos, ao desviar de cabeça falta cobrada por Rogério (outro veterano com papel de relevo no jogo). Aos 48, o 'vovô' quase sela a virada com cavadinha.

Rivaldo não tem mais pernas para uma partida inteira - e seria injusto exigir dele o ímpeto da juventude. Porém, num futebol carente de ídolos, suas aparições, espécie de canjas, são alento. Alegram tardes de domingo. Por quanto tempo ainda? Sei lá. Importa aproveitar.

Maluco beleza. Diego Souza aprontou poucas e boas em sua passagem pelo Palmeiras, onde era uma das raras estrelas num clube carente de conquistas. Não teve cabeça para aguentar as cobranças e tantas fez que foi despachado para o Atlético, onde também não deu certo. Sem alarde e sem status de estrela da companhia, apeou em São Januário. Suportou a bronca do péssimo início de temporada, mas cresceu com o time, na campanha do título da Copa do Brasil, e agora é um dos pilares do líder. O rapaz tem jogado muito, e um dos melhores momentos do ano surgiu ontem, com os três gols (um de placa), sobre o Cruzeiro. Que a seleção lhe faça bem.

Vexame verde. Quando se imagina que o Palmeiras passou toda vergonha possível, vem algo para estabelecer nova marca negativa. O time de Felipão não teve alma, coragem, equilíbrio e competência para bater o Atlético-GO com dois a menos, em Goiânia. Vencia por 1 a 0 (sem jogar bem) com 11 contra 11 e se encolheu após as expulsões de rivais. Levou gol e sufoco.

A humilhação de ontem é o episódio mais recente de uma história brilhante, porém incessantemente desrespeitada. Escrevi diversas vezes que a mentalidade no Palestra parou no tempo, se mumificou. O pensamento pequeno dos bastidores contaminou o time. Não há só jogadores que não poderiam jamais vestir camisa tão gloriosa. Gente que administra - e não é de agora - agride memória de palestrinos como Ferruccio Sandoli, Delphino Facchina, Paschoal Giuliano, Nicola Racciopi, Nelson Duque.

Ninguém liga. Enquanto grupos brigam pelo poder, time e torcida viram motivo de gozação. Até quando vão brincar? Fim da picada. Ou tem mais?

Timão vivo. Não houve como recobrar a liderança, mas o 1 a 0 suado no Bahia recolocou o Corinthians no caminho do título do mais aloprado Brasileiro dos últimos anos. O gol de Emerson serviu para afastar nuvenzinha cinza que rondava o time, não eliminou falhas e devolveu confiança.

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