História, tecnologia e precisão britânica marcam abertura dos Jogos

Os 80 mil espectadores ficaram impressionados com cerimônia espetacular e que já desafia organizadores dos Jogos do Rio 2016

ALESSANDRO LUCCHETTI, enviado especial, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2012 | 21h19

LONDRES - Os Jogos Olímpicos de Londres tiveram um início impressionante. Os oitenta mil espectadores que lotaram o Olympic Stadium se extasiaram com um espetáculo caro, criativo e que teve êxito ao destacar a importância do papel histórico da Grã-Bretanha. Desde já, os organizadores da abertura dos Jogos do Rio, em 2016, estão desafiados a apresentar, ao menos, uma atração que não deixe muito a desejar em comparação ao show de ontem.

"Isto é para todos" foi o tema escolhido para a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Londres. O cineasta Danny Boyle, o diretor artístico do evento, assina um texto que apresenta o conceito a partir do qual trabalhou. "Alguns países tiveram revoluções que as transformaram completamente. A Grã-Bretanha teve uma revolução que mudou o mundo todo. A Revolução Industrial alterou a existência humana. Nada mais jamais permaneceria igual depois dela".

O Olympic Stadium mostrava, no início da tarde, um cenário bucólico, com verdes pastagens. Desse solo, despontam chaminés imensas, ao som de uma música repetitiva e perturbadora. Durante os angustiantes e vibrantes 15 minutos de duração desse segmento, batizado de "Pandemônio", há representações de tristes momentos da história da humanidade, as duas Guerras Mundiais que reduziram boa parte da Europa a escombros, e forçaram a interrupção dos próprios Jogos Olímpicos. As edições que deveriam ter sido realizadas em 1916, 1940 e 1944 não ocorreram. Esse trecho se encerra com um anel gigante forjado em ferro, que se une a outros quatro, representando os Aneis Olímpicos, que se erguem sobre a arena.

Boyle afirma que o evento celebra "a criatividade, exuberância e, sobretudo, a generosidade do povo britânico". Nenhuma menção, é claro, foi feita à colonização predatória de outros continentes ou à pilhagem dos piratas, a mando da Rainha.

Elizabeth II apareceu num bem-humorado vídeo em que contracena com o atual 007, Daniel Craig. Logo depois, a Rainha, acompanhada por seu marido, o Duque de Edimburgo, é saudada por seus súditos. "God Save the Queen" é executado. O casal real é escoltado por Jacques Rogge, o presidente do Comitê Olímpico Internacional.

O segmento seguinte celebra a contribuição britânica à literatura infantil e seu Serviço Nacional de Saúde. Peter Pan, Mary Poppins, o Ursinho Puff e Harry Potter foram todos criados por autores britânicos.

Numa rara aparição pública, a autora de Harry Potter, JK Rowling, escritora que vendeu o maior número de livros na história da literatura, lê o primeiro parágrafo de "Peter Pan", clássico de JM Barrie. O cinema britânico é lembrado num curto interlúdio, de cinco minutos. Charlie Chaplin, Stan Laurel, James Bond e Harry Potter são lembrados, assim como o mais célebre filme com tema olímpico, "Carruagens de Fogo". O famoso tema musical, concebido por Vangelis, é executado pela Orquestra Sinfônica de Londres, conduzida por Sir Simon Rattle. Para arrematar, o comediante Rowan Atkinson, o Mr. Bean, surge sentado junto à orquestra.

No trecho seguinte, uma gigantesca casa britânica inflável surge, e em suas paredes são projetadas imagens de um casal que assiste à TV, enquanto as crianças se entretêm com videogames. A filha adolescente, June, se prepara para curtir a noite de sábado. A poderosa contribuição britânica ao rock é lembrada, com trechos de David Bowie, Queen (Bohemian Rhapsody), Rolling Stones (Satisfaction), Beatles (She Loves You), The Who, New Order (Blue Monday), Sex Pistols (Pretty Vacant), entre outros.

O inventor da internet, o londrino Tim Berners-Lee, fecha essa passagem, saudando os espectadores. Tem início então a interminável passagem das 204 delegações de países que participam dos Jogos Olímpicos de Londres. Uma trilha sonora bem escolhida contribuiu para que o tédio não se apoderasse totalmente dos ânimos do público.

Após 90 minutos, surge então a delegação britânica, que tem a Union Jack conduzida por Sir Chris Hoy, o escocês que pedala por ouros olímpicos. Naquele momento, a música tocada é "Heroes", de David Bowie. "Nós poderíamos ser herois por apenas um dia", escreveu o Camaleão do rock. Fechando o desfile, os Arctic Monkeys, banda de Sheffield, toca "I Bet You Look Good on the Dancefloor" e "Come Together", música de John Lennon creditada também a Paul McCartney. Na pista, bicicletas carregam asas de pombas da paz, num dos pontos mais marcantes da noite. Sebastian Coe, meio-fundista batido por Joaquim Cruz em 84, lembra que Londres é a única cidade a receber os Jogos por três vezes - antes, foi palco das edições de 1908 e 1948. Em seguida, os Jogos são declarados oficialmente abertos pela Rainha, não muito entusiasmada, e a bandeira olímpica, carregada, entre outros, por Marina Silva, é hasteada. Muhammad Ali participa desse momento.

Sarah Stevenson, britânica que foi medalhista olímpica no taekwondo em 2008, lê o juramento dos atletas, seguida pelos representantes dos árbitros e dos treinadores. O remador aposentado Steve Redgrave entra no estádio com a tocha. A pira é acesa. O fogo é alimentado a partir de diversos focos circulares, que se unem. E então, Sir Paul McCartney, toca The End e Hey Jude.

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