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Ugo Giorgetti
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Histórias repetidas

Esta foi uma semana triste para o futebol, como vem sendo frequentemente. Na falta de grandes craques e de grandes jogadas o assunto foi novamente episódios de racismo e intolerância. Não vou me ocupar do caso desta semana em particular. Todos os grandes colunistas e homens de imprensa falaram dele e falaram o que tinham que falar. A condenação foi geral e basta.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h22

Mas não sei por que esse episódio me fez lembrar de muitos outros, muita coisa injusta que atinge jogadores de futebol, partindo sempre de torcedores mal preparados que no ódio contra o clube adversário lançam mão de qualquer argumento, de preferência ferindo a honra e a intimidade de alguém.

Estamos cansados de casos que se repetem, se repetem e parecem ter mil vidas. Daí a pouco, reaparecem em outro lugar. Diminuir esse mal entranhado na sociedade é tarefa gigantesca. A impressão que tenho é que há um prazer nem tão secreto de parte da sociedade em atacar, ferir e tentar destruir pessoas que sequer conhecem, da qual não sabem nada, que nada lhes fizeram de bom ou de mal.

A gritaria da imprensa em geral faz com que o ofendido se sinta de alguma forma protegido ou apoiado. Mas às vezes isso não acontece. Às vezes o atingido tem que se virar sozinho e encontrar em si mesmo forças para sair da situação. Ou se deixar destruir e arruinar. Faz alguns anos um excelente jogador, uma jovem revelação, se não me engano do Santo André, foi pivô de uma situação dessas. Seu nome é Richarlyson, joga até hoje, mas me pergunto se sua carreira talvez não tenha sido bastante afetada por tudo o que aconteceu. É difícil lembrar como a coisa começou, mas o fato é que sua sexualidade foi posta em questão por algum motivo, ganhou como sempre as redes sociais e o jogador, negro além de tudo, foi exposto impiedosamente a julgamento público.

Sem dúvida tudo vinha misturado a componentes racistas. Recordo apenas que foi um verdadeiro massacre. Houve declarações levianas contra ele feitas em público e que nem por isso puderam ser contestadas pelo jogador, que teve seu pleito de reparação negado pela Justiça, em decisão polêmica.

Muita gente se manifestava contra sua presença no time. Quando a escalação era anunciada pelo alto falante só seu nome não era aplaudido pela torcida. Na melhor das hipóteses havia um enorme silêncio sobre ele, apesar da sua qualidade como jogador, reconhecida especialmente pelo técnico Muricy Ramalho. Por fim o jogador viu que era tempo de deixar o São Paulo, e o clube não fez nenhum esforço para retê-lo.

Em clubes daqui ficou impossível jogar. Foi para o Galo mineiro onde continuou jogando sua bola e foi figura importante na conquista da Libertadores. Mas mesmo assim acabou não ficando em Minas. Foi para o Vitória e pouco se fala dele. Nem sei se ainda lá está. Tomara que esteja. É um grande jogador, foi campeão pelo São Paulo, foi campeão pelo Atlético, joga em várias posições e num futebol carente de valores é incompreensível que tenha sido desdenhado tantas vezes, a maioria delas certamente apenas por causa de boatos e rumores.

Considero o caso de Richarlyson como um verdadeiro linchamento moral. A única coisa que torna o episódio menos dramático é a própria atitude do jogador. De enorme dignidade nunca fugiu da luta que empreendeu sozinho, ou apenas com auxílio da família. Enfrentou altivamente tudo e todos sem medo, sem constrangimento e, sobretudo, sem queixas. Só recorreu à Justiça uma vez. Viu o que aconteceu e não mais tomou esse caminho. Preferiu a caminhada solitária.

Hoje parece que o estão deixando finalmente em paz, enterrando o terrível momento por que passou e que se prolongou por anos. Talvez tenham se cansado do assunto. Mas ele certamente não esqueceu, e, se jamais houve alguém que sentiu na pele o que é preconceito, acrescido de racismo, esse alguém foi Richarlyson.

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