Alexandre Arruda/CBV
Alexandre Arruda/CBV

Homofobia no esporte ainda ganha de goleada

Fifa e COI se esquivam e não discutem o problema, apesar de atletas assumirem a homossexualidade e terem suas carreiras prejudicadas

AMANDA ROMANELLI, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2013 | 08h30

SÃO PAULO - O tema pode surgir após declarações da saltadora russa Yelena Isinbayeva, diante da foto de Emerson Sheik no Instagram ou até por uma ação contra o preconceito no Campeonato Inglês. Fato é que a discussão sobre a homossexualidade no esporte - como se fosse algo à parte da sociedade - não se esgota e tem sido cada vez mais frequente.

Mais do que a dificuldade de se discutir as questões de gênero dentro do campo esportivo, os atletas gays enfrentam desafio ainda maior em sua área de atuação: a homofobia. Não se trata apenas de preconceito, mas de aversão ao tema, pouco combatido, e que se choca contra os preceitos do esporte, celebrado como espaço de inclusão e do encontro das diferenças.

Tanto que, até hoje, nem a Fifa, nem o COI, posicionaram-se firmemente contra manifestações homofóbicas e tampouco trazem o assunto ao debate. Pelo contrário. Quando o Mundial de 2022 foi dado ao Catar - um país em que ser homossexual é crime -, o presidente da Fifa recebeu a sugestão de uma campanha contra a homofobia, assim como as realizadas para o combate ao racismo ou à xenofobia. Joseph Blatter se esquivou do assunto, afirmando que aquela era uma “questão menor” - em seguida, precisou pedir desculpas.

A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros chegou a enviar um ofício para a Fifa, em 2012, pedindo uma campanha contra a homofobia na Copa do Brasil, em 2014. Até hoje espera uma resposta sobre sua demanda.

O assunto, relativamente adormecido junto à Fifa desde 2010, está tirando o sono dos dirigentes do esporte olímpico. Desde que a Rússia aprovou em agosto a chamada “lei antigay”, que proíbe manifestações públicas a favor dos homossexuais e prevê até a prisão de ativistas, o COI se depara com um dilema: a sede da próxima Olimpíada - os Jogos de Inverno serão em Sochi, no início de 2014 - tornou-se, aos olhos do mundo, um local onde a discriminação é institucionalizada. Vale lembrar que homossexualidade era crime na Rússia até 1993.

O COI evocou a carta olímpica (que defende as liberdades individuais) e disse não ter como interferir na soberania de um país em decidir suas próprias regras. Arrefeceu o tema pedindo “mais explicações” sobre a lei, até que, no Mundial de Atletismo, disputado em Moscou, Yelena Isinbayeva deu declarações favoráveis à regra.

A atleta, que havia acabado de conquistar o ouro no salto com vara, disse que os russos “são pessoas normais”, e que a legislação tem como objetivo proteger a juventude de seu país.

As declarações da saltadora (que depois disse ter sido mal interpretada) tiveram repercussão mundial. Vários atletas colocaram-se a favor da causa gay, como a sueca Emma Green-Tregaro, que pintou as unhas com as cores do arco-íris (e motivou a fala de Isinbayeva a favor do governo de seu país). O americano Nick Symmonds, prata nos 800m, dedicou sua medalha aos homossexuais. “Acredito que todos os seres humanos merecem ser respeitados de maneira igualitária.”

Uma coisa, porém, é apoiar a causa gay. A outra é revelar-se como um e conviver em meio à intolerância. “O esporte não é lugar de inclusão, pelo contrário, é excludente por natureza”, afirma o antropólogo Wagner Xavier Camargo, ligado à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), estudioso da relação entre esporte e gênero. “O esporte é uma instituição segregadora de gênero, em que não se admite a ideia que haja outro (gênero) que não seja o masculino, o dominante.”

Por isso, é raro que um atleta assuma, em público, sua orientação. Quando o faz, muitas vezes evita voltar ao assunto. Para Camargo, os esportistas, influenciados pelo ambiente em que atuam, apresentam muitas vezes uma “homofobia introjetada”. “O esporte, como meio masculinizado e heterossexual, cria essa questão. É a sensação de o que eles são é ‘errado’.”

O central Michael, do São Bernardo, revelou ser homossexual quando jogava no extinto Vôlei Futuro, de Araçatuba, e foi vítima da maior manifestação homofóbica no País. Em 2011, viu-se em um ginásio lotado em Contagem (MG), na semifinal da Superliga, ouvindo em coro os gritos de “bicha”. Diante da situação constrangedora, decidiu revelar ser gay - e não fala mais sobre o assunto.

O mesmo ocorreu com Lili, do vôlei de praia, que se casou com Larissa, já aposentada, no início de agosto. Antes da partida de estreia no Circuito Brasileiro, em setembro, as perguntas sobre o casamento foram inevitáveis. Mas Lili fez um pedido: “Vamos falar de vôlei?”.

Há o receio, também, da rejeição de patrocinadores e de clubes. Jason Collins, primeiro jogador em atividade na NBA a “sair do armário”, revelação que fez há três meses, ainda não tem onde jogar, mesmo sendo veterano de 12 temporadas. O torneio começa em outubro.

Também no basquete americano, mas na WNBA, a pivô Brittney Griner assumiu publicamente ser homossexual em abril, após assinar contrato com o Phoenix Mercury como escolha número 1 do draft. Sua orientação era conhecida da família e dos amigos desde o ensino médio, mas foi escondida durante o tempo que defendeu a Universidade Baylor. Foi uma exigência da técnica da equipe, que temia ter problemas para recrutar jovens talentos.

Na Olimpíada de Pequim, disputada há apenas cinco anos, somente um entre os mais de 10 mil atletas assumiu publicamente ser gay. Era o australiano Matthew Mitcham, então com 20 anos, que ganhou o ouro na plataforma de 10 metros dos saltos ornamentais. Em Londres-2012, segundo levantamento do site Outsports, especializado na cobertura esportiva voltada ao público gay, eram 23.

No futebol (entre homens), o índice chega a zero no Brasil. Não há nenhum jogador em atividade assumidamente gay - e basta lembrar da polêmica do “selinho” de Emerson Sheik para se entender o motivo. Tampouco na Itália, muito menos na Espanha, nem sequer na Inglaterra, para falar das grandes ligas europeias.

O americano Robbie Rogers, atualmente no Los Angeles Galaxy, é o único jogador gay em uma liga de projeção. A revelação foi feita em fevereiro, em um texto na internet. Ao mesmo tempo, o lateral de 26 anos anunciava a aposentadoria. “Sou católico, conservador, jogador de futebol. E gay”, disse ao The New York Times, para tentar justificar sua decisão, revogada em maio.

OPINIÕES

Wagner Xavier Camargo (Antropólogo) - "O esporte não é lugar de inclusão. É excludente por natureza".

Robbie Rogers (Jogador do Los Angeles Galaxy) - "Sou conservador, católico, jogador de futebol e gay".

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