Hora de entrega

Não sei se você faz parte da legião sedenta por ver sua equipe amolecer hoje ou nas próximas duas rodadas só para eventualmente prejudicar rivais. Com todo a simpatia que lhe devoto, não quero saber disso, nem tente contar com meu apoio. Entregar ou não entregar a rapadura não é dilema que me aflige. Não vou sequer discuti-lo, pois respeitar o uniforme que veste é questão básica para profissionais conscientes. Qualquer vacilo proposital representa atestado de desonestidade. Tem mais: se o jogador do meu time agora entrega para estragar a vida do adversário, quem me garante que amanhã não será seduzido para derrubar a própria casa? Tô fora.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

A hora é de entrega, como lasquei no título da crônica. Mas entrega entendida como esforço adicional, dedicação, abnegação. Como sacrifício extra para encerramento decente de temporada. Motivos não faltam para todos suarem a camisa - na mais suave das hipóteses por carinho pelo público ou para chegar em casa com a certeza do dever cumprido. Pode dar uma risadinha irônica ou achar que vivo em outro mundo. Não ligo. Com essas coisas não se brinca.

Quem não deve se meter a brincar com fogo é o Corinthians. Depois da vitória polêmica diante do Cruzeiro, só depende de suas forças para chegar ao penta. Condição extraordinária para aumentar a confiança no momento do sprint. Neste domingo, faz jogo-chave com o Vitória, em Salvador. Ganhar novamente pode dar-lhe o direito de colocar uma mão na taça. Empolgação à parte, precisa jogar mais do que na semana passada.

Para sorte de Tite e da Fiel, alguns titulares ou vivem boa fase (como o goleiro Júlio César), ou surpreendentemente mantêm o fôlego e a constância (Ronaldo) ou se recuperaram de contusão (Dentinho e Jorge Henrique). O astral, portanto, é favorável. O entrave se chama Vitória, 39 pontos e na porta do inferno do descenso. Há muito deixei de arriscar uns cobres na Loteca. Se tivesse esse hábito, cravaria coluna do meio.

Para quem gosta de estatística, uns números para indicar que empate não seria anormal: o Corinthians como visitante tem 4 vitórias, 7 empates e 6 derrotas. Ou seja, não incomoda muito quando sai de casa. O Vitória como anfitrião ganhou 7 vezes, empatou 6 e perdeu 4. Também nada empolgante.

Empate não está fora de cogitação para São Paulo x Fluminense. Os dois tricolores se equivalem, embora com caminhos distintos. O paulista tem tênue esperança de chegar à Libertadores - e precisa lutar por isso, com as baixas de Rodrigo Souto, Dagoberto e Ricardo Oliveira. O carioca fica de novo sem Emerson, pra mim o desfalque que mais influiu na oscilação do segundo turno. O Flu decepcionou com o 1 a 1 com o Goiás no Engenhão, e não ostenta a picardia e a eficiente simplicidade da primeira parte do campeonato. Não podia ter atirado no ralo os dois pontinhos da semana passada. Pra complicar, o São Paulo como hospedeiro arruma encrenca: ganhou 9 vezes. O Flu venceu 6 visitas.

O Cruzeiro, 60 pontos, volta a correr por fora, já que está a 2 do Flu e a 3 do Corinthians. Não lhe resta alternativa a não ser descontar no Vasco, em Minas, a raiva desencadeada pelo desempenho do juiz Sandro Ricci, aquele que viu pênalti em Ronaldo, não enxergou pênalti em Thiago Ribeiro e ainda foi na onda do bandeirinha e desandou a dar impedimentos errados de ataque. Neste momento, é o que tem menos chance de título. O Vasco está na zona do lusco-fusco, com pouco a almejar pra cima da tabela e com nada a ameaçar-lhe embaixo.

A fuga do rebaixamento estará em pauta em Palmeiras x Atlético-MG (39 pontos), Goiás (32 e a um passo da Série B) x Santos, Avaí (37) x Atlético-GO (40). O Botafogo (56) recebe o Inter e ainda está de olho na Libertadores. Por transparência, teria sido melhor que os três jogos do sábado também passassem para hoje. Mas...

Mas torço mesmo para que as manchetes de amanhã se concentrem nos gols, nos resultados, na atuação dos jogadores e não nas decisões dos árbitros. Que os anjos da guarda dos apitadores os ajudem.

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