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Humanos, apenas

Dia de eleição sempre me deixa emocionado. Ainda mais porque faço parte de geração que teve, por muito tempo, negado o direito de escolher governadores e presidente, que nos eram impostos goela abaixo. Por isso, não abro mão de votar, nem me incomodo com eventuais escolhas "erradas". Mil vezes o povo equivocar-se do que a decisão ficar para um bloco de iluminados. Democracia sempre.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2014 | 02h05

Noves fora a empolgação pessoal, o primeiro parágrafo serve de escada para justificar a crônica desta segunda-feira. O domingo especial por aqui me fez olhar certos episódios do esporte como consequências de reações humanas e, portanto, elogiáveis ou passíveis de compaixão.

Por exemplo, a confusão armada por Arsène Wenger e José Mourinho, durante o clássico entre Arsenal e Chelsea, disputado ontem no estádio deste último. O francês e o português não se bicam - isso é inegável, reconhecido por todos que acompanham o futebol inglês, e tem até um quê de folclórico.

Mourinho costuma cutucar Wenger ao chamá-lo de loser (perdedor) e coloca o currículo dele como comparação só para humilhar o rival. O português é eficiente, mas chato de galocha, com um ego descomunal, a ponto de autointitular-se The Special One (O Cara, em tradução livre e adaptada). O gaulês se morde de raiva.

Vai daí que, no jogo quente da sétima rodada, começou um bate-boca entre a dupla, enquanto a bola rolava solta no campo. Wenger se aproximou de Mourinho e deu-lhe um chega pra lá digno de barracos de bons tempos da várzea (que agora deu pra ficar civilizada também). Mourinho retrucou, empurrou Wenger e ficou um com dedo em riste na cara do outro, talvez na base do "sua mãe não é homem", "seu isso, seu aquilo". Vai ver não faltou nem o "te pego lá fora" ou "vou chamar meu irmão mais velho". Foi legal.

Deprimente?! Como assim? Claro que não é comum ver dois treinadores de ponta, com fama internacional, alinhados, engravatados e posudos a se comportar como moleques de rua. Não orna com o cargo, nem com os cabelos grisalhos de ambos. Não se descarta a possibilidade de tomarem punição, porque as imagens foram claras.

Mas quer saber? Reagiram como simples e normais seres humanos. Quantas vezes a gente não esquenta a cabeça além da conta e faz bobagem? Foi o que aconteceu com eles. Depois, ao darem-se conta da criancice, devem estar com vergonha - ou deram risadas de si mesmos. Ganharam minha simpatia, pois ando farto de ver robozinhos públicos.

Outro gringo que chamou a atenção foi Michael Phelps, o maior ganhador de medalhas de ouro da história dos Jogos Olímpicos. Sim, o americano que nada melhor do que golfinho e que tem a altura do Cássio e a cara do Carlitos Tevez. Pois o moço (29 anos) tomou multa e foi pro distrito, de novo, ao não passar pelo teste do bafômetro. Tinha tomado umas a mais. Coisa feia, todos reconhecemos, e não merece aplausos nem incentivos.

O conforto vem do fato de que esse mito, monstro, rei das piscinas comete besteiras como qualquer um de nós, que mal e mal nos viramos com nado cachorrinho ao cairmos na água. Tira das costas dele a aura de semideus, faz com que se aproxime das pessoas comuns. Assim como agiu bem Ian Thorpe, outro astro da natação, que recentemente assumiu a homossexualidade. Largou mão das aparências.

O espírito de festa cívica baixou minha guarda. Até diminuiu a indignação com a atitude de Maurício Assumpção, presidente do Botafogo, que de uma hora para outra anunciou pacotaço de dispensas, que atingiram titulares como Emerson Sheik, Bolívar e Júlio César. Gesto de desespero, de quem não vislumbra saída para o buraco em que o clube se enfiou e passa a atirar para todo lado. A equipe afunda, embica em direção à Segundona e desnuda o caráter falível do cartola.

Não são episódios edificantes, nem sacadas de gênio. Apenas manifestações de humanidade.

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