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IAAF refaz testes e encontra 32 casos de doping em Mundiais

Casos teriam ocorrido entre as edições de 2005 e 2007

Estadão Conteúdo

11 Agosto 2015 | 12h12

Denunciada por supostamente ter encoberto 800 casos de doping entre 2001 e 2012, a Associação das Federações Internacionais de Atletismo (IAAF) tenta minimizar os danos causados à sua imagem. Nesta terça-feira, anunciou que refez, nos últimos meses, com tecnologia mais avançada, a análise de amostras colhidas durante os Mundiais de Atletismo de 2005 a 2007. Nelas, encontrou mais 32 casos positivos.

De acordo com a IAAF, essa reanálise começou em abril de 2015, graças a uma modificação no Código Mundial Antidoping, que ampliou de oito para 10 anos o período em que as amostras podem ser reavaliadas. Em 2012, a entidade já havia feito uma nova análise dos exames de urina colhidos no Mundial de Helsinque (Finlândia), em 2005. À época, puniu seis atletas num total de nove competidores suspensos pela reanálise das amostras de vários eventos.

Agora, as avaliações encontraram substâncias dopantes em 32 exames, feitos por 28 atletas. Nenhum nome foi divulgado, uma vez que esses esportistas primeiro precisam ser notificados para que possam se defender das acusações. A nacionalidade deles ou se conquistaram medalhas no Mundial também são informações que não foram reveladas. Cada confederação nacional deverá julgar seus atletas.

A IAAF só diz que a grande maioria desses 28 atletas está aposentada. "Alguns são atletas que já foram punidos e apenas alguns continuam ativos no esporte", afirma a entidade, que garantiu, com destaque em seu comunicado, que nenhum deles vai participar do Mundial de Pequim, que começa no próximo dia 22.

"A IAAF embarcou em 2005 nesta estratégia de armazenamento por longo prazo e reanálise para garantir que os atletas limpos sejam recompensados pelos seus esforços honestos em competições da IAAF. A IAAF está empenhada em utilizar todos os meios à sua disposição dentro do Código Mundial Antidoping para erradicar as fraudes, independente de quanto tempo for necessário", disse a entidade.

O órgão máximo do atletismo internacional lembra que os conhecimentos científicos de 2005 ou 2007 não eram suficientes para detectar as substâncias encontradas agora. "A ciência progrediu de forma significativa nesses últimos 10 anos e a IAAF se aproveitou das novas técnicas disponíveis. Dez anos pode parecer muito tempo para olhar para trás, mas a IAAF sempre se colocou para fazer o que for possível para proteger os atletas limpos", escreve a entidade.

A nota termina com a IAAF dizendo que "não nega o fato de que alguns atletas continuam trapaceando e fraudando seus adversários", mas que vai fazer de tudo para proteger os atletas limpos, "que são maioria".

ESCÂNDALO

Há duas semanas, o jornal britânico The Sunday Times e canal de tevê alemão ARD revelaram ter tido acesso ao resultado de 12 mil testes de sangue de 5 mil atletas ao longo de uma década. As informações foram tiradas do banco de dados da própria IAAF e vazadas por uma fonte não identificada.

Os documentos levantam suspeitas sobre um terço das medalhas conquistadas em provas de resistência em Mundiais e Jogos Olímpicos disputados em uma década. De acordo com a análise, 800 atletas, competindo dos 800 metros à maratona, registraram testes de sangue com resultados suspeitos ou abaixo dos padrões da Agência Mundial Antidoping (Wada).

O documentário ''Doping Ultrassecreto: O Sombrio Mundo do Atletismo'', do canal ARD, mostra ainda que 146 medalhas de Mundiais e Jogos Olímpicos, sendo 55 de ouro, foram conquistadas por atletas que apresentaram estes resultados suspeitos nos testes. Nenhum deles perdeu as medalhas em eventuais provas antidoping.

No fim de semana passado, jornal britânico ampliou a abrangência da sua denúncia e, no domingo, trouxe a informação de que 34 vencedores de ''grandes maratonas'' (Berlim, Boston, Chicago, Londres, Nova York e Tóquio) entre 2001 e 2012 poderiam ter sido punidos por suspeita de doping. De acordo com o levantamento, sete de 24 campeões da Maratona de Londres eram atletas que em algum momento da carreira apresentaram resultados anômalos em seus exames antidoping. O jornal não citou nomes.

De acordo com a reportagem, os organizadores das maratonas não teriam conhecimento do fato, uma vez que eles pagam pelos exames antidoping, mas é a IAAF que analisa os resultados. Em nota, a Maratona de Londres se declarou "muito preocupada" com as denúncias trazidas pelo jornal e fez duras críticas à IAAF.

A entidade máxima do atletismo respondeu na segunda-feira, pedindo que seus parceiros tivessem mais cuidado com suas declarações e cobrando união da modalidade. O estrago, entretanto, já estava feito. Um vídeo publicado também na segunda-feira mostrou diversos atletas, entre eles o campeão olímpico do lançamento de disco Robin Harting, dizendo que não confiam mais na IAAF.

Só quando o cerco começou a se fechar é que a IAAF abandonou a postura de negar todas as denúncias para, nesta terça-feira, apresentar o resultado dessa reanálise. A entidade alega que é a única que sistematicamente estoca as amostras antigas e conclamou outras federações internacionais a fazer o mesmo.

A IAAF, entretanto, não explicou por que só agora resolveu anunciar o resultado desta reanálise e porque ela só contempla os Mundiais de Helsinque e Osaka. A denúncia feito pelos órgãos de imprensa europeus tratam de Mundiais até o de 2011 (incluindo indoor) e as Olimpíadas de 2004, 2008 e 2012.

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