Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Ian Matos sai da selva amazônica para se tornar referência nos saltos ornamentais

Atleta do Fluminense aprendeu a saltar nas águas do Rio Pracuúba, em Muaná, Pará, e se tornou um dos melhores na modalidade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2019 | 04h30

A infância de Ian Matos ajuda a entender sua escolha pelos saltos ornamentais, modalidade que muita gente ainda não sabe o que é no Brasil, nas palavras do próprio atleta. Ele aprendeu a nadar com dois anos nas águas do Rio Pracuúba, no distrito de Muaná, interior do Pará. Como a região não tinha luz elétrica, era ali o lazer da garotada. O maior desafio era saltar de uma ponte de uns 3 ou 4 metros na maré baixa. Tchibum. Sem saber e sem querer, sua carreira como um dos principais atletas olímpicos da modalidade começou no coração da região amazônica.

O rio guardava outros segredos. Vários amigos esbarraram em peixes elétricos, como o poraquê, capaz de gerar até centenas de volts. Outros saíam da água com o ferrão de uma arraia na mão. As águas eram turvas a ponto de dificultar a visão de quem estava nadando. A correnteza era forte. O lugar do mergulho ficava afastado, no meio da floresta. Sua mãe, Rosivanda, não deixava que ele fosse sozinho. Fora da água, São Miguel de Pracuúba, onde ainda moram vários familiares de Ian, é um município carente, sem saneamento básico. A região possui Índice de Desenvolvimento Humano de 0,547 (escala de 0 a 1) – faixa considerada "baixa".

Ian se tornou atleta em um projeto social do clube Tuna Luso, que oferecia vagas para a comunidade local. Ele queria natação, mas não havia mais vagas. Contentou-se com os saltos ornamentais quando viu que os treinamentos tinham água – paixão de sua vida – e cama elástica. "Foi uma das melhores sensações da minha vida", disse.

Hoje, ele é um dos grandes nomes do Brasil nos saltos ornamentais. O atleta do Fluminense já representou o País em uma Olimpíada, dois Mundiais de esportes aquáticos, uma Copa do Mundo e dois Jogos Pan-Americanos, competição que vai disputar mais uma vez neste ano, em Lima. "Meu objetivo é ficar entre os três melhores", projeta o competidor de 30 anos.

O objetivo de Ian tem de ser inserido em um contexto. A modalidade é um esporte pouco conhecido e difundido no Brasil, o que gera dificuldade maior para conseguir patrocinadores. Existem poucos centros próprios da modalidade. O salto ornamental faz parte de uma entidade (Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos) com mais quatro esportes: natação, maratonas aquáticas, nado sincronizado e polo aquático. Com isso, as verbas são escassas até para competições do nível adulto. Em suma, é uma modalidade que luta para sobreviver com cerca de 500 praticantes em todo o território brasileiro.

Nas últimas temporadas, surgiu um alento. Há dois anos, nasceu a Saltos Brasil, nova confederação, reconhecida pelo COB, para buscar visibilidade e basicamente atrair patrocinadores. Em março, a entidade promoveu a primeira edição do Troféu Brasil, uma espécie de Campeonato Brasileiro. Um dos principais desafios é formar profissionais qualificados, gente que seja capaz de encontrar novos talentos como Ian.

Praticar salto ornamental significa saltar de uma plataforma elevada, fixa ou não (trampolim), em direção a uma piscina, realizando uma série de movimentos acrobáticos e plásticos. Em certo sentido, ele se parece com a ginástica olímpica.

Nas competições, a altura da plataforma chega a 10 metros. Os saltos são avaliados pela dificuldade nas manobras e o posicionamento do atleta ao cair na água. Nos Jogos de Sydney, em 2000, uma nova categoria foi introduzida: os saltos sincronizados. Duplas de homens e mulheres saltam simultaneamente e são julgados pela qualidade técnica, estilo, grau de dificuldade do salto e sincronismo no ar.

No salto sincronizado, Ian quer ficar entre os cinco melhores no Pan ao lado de Luiz Outerelo, novo talento que surgiu nas piscinas de Brasília.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Para conseguir esses objetivos, ele faz questão de unir seus dois mundos, o olímpico e o amazônico. Nas férias, volta para São Miguel de Pracuúba. Ian faz questão de mandar para o Estado uma foto linda, em que dá um salto mortal na posição carpada no rio onde aprendeu a nadar no meio da selva.

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