Ídolos dos novos tempos

O recente fenômeno envolvendo Ronaldo e a repercussão de sua volta faz pensar no quanto o futebol disputado no Brasil, como de resto em qualquer outro lugar do mundo, depende de seus ídolos domésticos. E sobre o que é, atualmente, ser ídolo atuando em seu próprio país.Entre os craques mais recentes que jogaram por aqui, Robinho é o recordista em termos de tempo de casa, com apenas três anos brilhando com a camisa do Santos, entre 2002 e 2005. Pouco, muito pouco, principalmente quando comparado aos quase 18 anos que Pelé esteve a serviço do mesmo Santos. Mesmo assim, Robinho foi ídolo.Antes que alguém reclame, aviso que Rogério Ceni, com seus quase 19 anos de São Paulo, e Marcos, com seus quase 17 de Palmeiras, não entram nessa minha conta. Porque, além de pertencerem a uma geração anterior, os dois goleiros tornaram-se avis raras, os últimos exemplares de uma espécie em extinção, exceções que apenas confirmam a regra. Refiro-me, aqui, a gente como Kaká, que jogou no São Paulo somente de 2001 a 2003. Como o argentino Tevez, que ficou no Corinthians por pouco mais de uma temporada, entre 2005 e 2006. Ou como o chileno Valdivia, que esteve no Palmeiras por 24 meses, entre agosto de 2006 e agosto de 2008. Apesar desses curtos perídos de tempo, todos eles, como Robinho, conseguiram se tornar ídolos, daqueles capazes de fazer jovens e crianças andarem com as camisas dos times brasileiros, ostentando seus respectivos nomes e números nas costas. Ídolos, sim, ainda que por um tempo bem mais curto do que os de Roberto Dias no São Paulo (13 anos), Rivellino no Corinthians (dez anos) ou Ademir da Guia no Palmeiras (16 anos).E por que isso aconteceu? Porque, ao contrário do que tendem a pensar os torcedores quarentões como eu, o conceito de ídolo não morreu, apenas se modificou. Ontem, ele era medido principalmente pelos anos. Hoje, ele depende muito mais da intensidade que do (curto) período que o jogador fica ou ficará exposto a essa idolatria. O próprio fenômeno Ronaldo, aos 32 para 33 anos de idade e recuperando-se de uma sucessão de problemas físicos, vem comprovar isso, ainda que na contramão. Ser ídolo no Brasil, atualmente, somente é possível em uma das duas pontas da carreira como atleta profissional, ou muito no início ou muito no fim.Ajustar nosso calendário futebolístico ao da Europa não evitaria o êxodo, mas pelo menos facilitaria a permanência dos principais jogadores do início ao fim de uma mesma temporada, no mínimo a primeira como profissional, até que o mercado europeu fosse reaberto e "acordasse" para a aquisição de nossos principais destaques da temporada anterior. Não é uma solução, mas já é alguma coisa em um País onde atualmente esse êxodo ocorre no meio das competições, descaracterizando-as do turno para o returno. E onde a renovação de talentos se dá em uma velocidade maior que em qualquer outro, invejada mesmo pelos ricos padrões europeus. O ídolo dos novos tempos não é eficiente, é eficaz. Deixa seu nome na história e sai em busca de novos voos, como deve acontecer com o palmeirense Keirrison. Ou escolhe o ninho de origem para seu canto do cisne, como parece ser o caso de Ronaldo. Temos de nos conformar com isso, e uma vez aceito esse fato consumado, inevitável principalmente por conta da estrutura econômica brasileira e mundial, ficará mais fácil aproveitar melhor o pouco tempo de convivência que nos resta junto a nossos ídolos, de hoje e do futuro.* Jornalista e pesquisador esportivo. Participa dos programas "Loucos por Futebol" e "É Rapidinho", dos canais ESPN. É um dos editores do caderno Esporte, do Diário do Comércio, e professor de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Autor de Almanaque do Timão e Os dez mais do Corinthians.

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