Ilusão e realidade

A Espanha para amanhã para acompanhar o duelo que o Barcelona fará com o Manchester United, em Londres, pela final da Copa dos Campeões. Essa frase é verdadeira, mas tem um exagerado componente de lugar-comum. Pois não é toda a Espanha que está à espera dessa partida especial. O time de Messi, Xavi, Iniesta encanta milhões de apaixonados pelo futebol pelo país das tortillas, das paellas, e muitos mais no exterior. Também desponta como o favorito nas apostas nas próprias casas inglesas do ramo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

A busca por mais uma taça para este extraordinário grupo de artistas, no entanto, passa indiferente para parcela de espanhóis. Engana-se quem pensa que se trate de torcedores do Real Madrid. Estes querem mais que os catalães entrem pelo cano e estão preocupados com mudanças na estrutura do clube. O técnico José Mourinho ganhou parada dura com Jorge Valdano, de quem conseguiu livrar-se como diretor esportivo. Em seu lugar, foi nomeado Zinedine Zidane.

Quem não está nem aí para Barcelona, Real Madrid ou para quaisquer questões esportivas são alguns milhares de jovens que continuam acampados em praças a protestar contra a falta de perspectivas para seu futuro e pedem renovação na política. Tocam-lhes mais diretamente temas como a alta taxa de desemprego para menores de 34 anos (em algumas regiões bate nos 30%) e o desencanto com os partidos e suas propostas ideológicas (ou a falta delas). A frustração se mostrou implacável nas eleições regionais do último final de semana, que representaram duro golpe para o governo de Jorge Luiz Zapatero e acentuaram o avanço da direita local.

O movimento espontâneo, que começou com reuniões de jovens em Portugal em protesto contra a interferência do FMI na economia doméstica, esparramou-se pela Espanha e divide atenção com a festa nacional dos touros (que, cada vez mais, provoca reações de grupos contrários à chacina dos animais) e com o evento que fecha em alto estilo o calendário futebolístico no continente. Por motivos profissionais, desembarquei por aqui, nestes dias, para uma fugaz incursão pela Península Ibérica, e me surpreendi com essa atitude de desencanto de rapazes e moças, a maioria com títulos universitários, que temem permanecer à margem do mercado de trabalho em consequência de políticas equivocadas de seu país.

Parte da Espanha real está tensa com o que lhe reservam os próximos anos e com o que lhes exigem parceiros da Comunidade Europeia. Mas, vá lá, nem tudo é apreensão. Há espaço para a diversão e para discutir futebol. E, por mais que haja indisfarçável dor de cotovelo, até os rivais enxergam mais qualidades no Barça do que no Manchester na repetição de clássico que dois anos atrás fizeram em Roma. Naquela ocasião, deu Barcelona, por 2 a 0, em um show de bola que tive a sorte de acompanhar ao vivo, no Estádio Olímpico.

Assim como naquela ocasião, agora também me alinho com os que preferem o Barcelona, embora admire o estilo do Manchester, mais amadurecido e prático do que o de 2009. A turma do técnico Pep Guardiola me passa confiança pela solidez do conjunto e pela força individual. Soa como hipérbole, admito, porém quem tem Messi já larga em vantagem. O argentino vive fase esplêndida, tem feito gols como nunca (11 nesta Copa) e tem sido decisivo na coleção de troféus de sua tropa nas últimas temporadas. Tem espírito vencedor. E, para sua felicidade, está rodeado por talentos.

O Manchester não chegou por acaso a outra final. Seria simplista considerar fortuita sua trajetória. Não tem, como na decisão de Roma, uma estrela do calibre de Cristiano Ronaldo. Conta, todavia, com uma harmonia louvável entre defesa, meio-campo e ataque. Não será injusto, se chegar ao quarto título. Mas, para os padrões de futebol que me agradam, ainda prefiro o Barça, outro que briga para assumir o topo pela quarta vez.

Bola fora, bola dentro. Na coluna de domingo, cometi gafe tremenda ao não citar o título mundial de clubes conquistado pelo Corinthians em 2000. Vários leitores protestaram, com tons diversos, mas todos com razão. Anteontem, confirmou-se nota que escrevi de Milão, em abril, quando disse que o Milan não abriria mão de ter Seedorf por mais uma temporada, o que frustraria planos corintianos. Seedorf não sai.

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