Bethany Mollenkof/The New York Times
Bethany Mollenkof/The New York Times

Imigrante brasileiro transforma vidas como técnico. É o suficiente para permanecer nos EUA?

Para ficar, disseram as autoridades de imigração do país, ele deve provar que tem uma 'capacidade extraordinária'

Miriam Jordan, New York Times

19 de fevereiro de 2020 | 16h25

Nos últimos três anos, o treinador de remo Henrique “Hicu” Motta gerou histórias de sucesso improváveis em um esporte desde sempre associado aos privilegiados. Levou sua equipe de garotas do ensino médio, provenientes de famílias da classe trabalhadora, a campeonatos nacionais e mandou várias delas para as melhores faculdades com bolsas de estudos esportivas.

“Sou latina, de baixa estatura e nunca participei de uma equipe esportiva”, disse Isabella Soto, 17 anos, filha de babá, torcendo para remar por uma universidade de elite no próximo outono.

Isabella, que foi aceita na equipe RowLA apesar de ter apenas 1,58 metro de altura “nos melhores dias”, é uma americana cujos pais são mexicanos, sem documentos. Kassie Kim é filha de imigrantes coreanos, uma caixa de supermercado e um instalador de alarmes de incêndio. Samadhi Dissanayake, americana de origem do Sri Lanka, foi criada por uma mãe solteira em moradias subsidiadas pelo governo e pega dois ônibus para ir aos treinos.

“Eu odiava esportes antes de vir para cá”, disse Samadhi, que também quer remar na faculdade. “Agora eu amo o remo e o senso de comunidade do esporte”.

Mas Motta, brasileiro de 39 anos que está no país com um visto de trabalho, recebeu uma notificação de que seu pedido para permanecer nos Estados Unidos foi negado. Para ficar, disseram as autoridades de imigração do país, ele deve provar que tem uma “capacidade extraordinária” para fazer um trabalho que poderia pertencer a um americano.

Em um esporte dominado por atletas brancos e ricos, a RowLA, sob a liderança de Motta, faz questão de escalar aquelas pessoas que normalmente não teriam acesso ao remo. Nem a constituição física nem a destreza atlética determinam quem pode competir e ter sucesso. 

“Ele consegue pegar uma garota, independentemente do tamanho e da habilidade, e transformá-la em uma remadora de ponta. Isso é raro entre os técnicos”, disse Liz Greenberger, analista de segurança internacional aposentada que fundou a equipe há uma década e trouxe Motta para ser seu segundo treinador, em 2017. “A filosofia de Hicu é perfeita para o nosso programa”, disse ela.

A filosofia de Motta é simples: “Tento fazer algo especial de toda e qualquer garota que queira dar uma chance ao remo”, disse ele.

A questão é: isto conta como “capacidade extraordinária”?

Nos três anos desde que recebeu o visto de trabalho, Motta criou um programa de remadoras dedicadas que competiram nos Campeonatos Nacionais de Remo da Juventude dos Estados Unidos, o nível mais alto para remadoras do ensino médio, e ganhou bolsas de estudos para suas atletas. Mas Motta não é apenas um treinador.

Nutricionista de formação, ele instrui suas atletas a manterem uma dieta equilibrada. (Nada de alimentos processados antes das corridas, só frutas para dar energia e água de coco para hidratar.) Motta recomenda que suas remadoras também se dediquem aos estudos e pensem nas muitas possibilidades do futuro.

“Não focamos apenas no desempenho do remo: estamos desenvolvendo atletas estudantes”, disse Motta, no estacionamento da Marina del Rey em Los Angeles, onde a equipe se reúne seis dias por semana para treinar, faça chuva ou faça sol.

Pequeno programa de remo apoiado por doações privadas, a RowLA não se compara a muitas das equipes de elite de todo o país, algumas das quais existem há um século. O programa não tem onde guardar seus equipamentos. Os 17 barcos da RowLA, as máquinas de remo e outros materiais ficam no estacionamento, protegidos por lonas.

“O que Hicu faz é extraordinário”, disse Iva Obradovic, treinadora de remo veterana e ex-remadora profissional. “Ele está competindo contra equipes ricas. Nenhum outro técnico conseguiria fazer isso. E ele não quer elogios nem glória”.

Depois de assumir o comando, Motta começou a aprimorar a RowLA. Estabeleceu um programa de desenvolvimento para garotas do ensino médio e expandiu o alcance do programa de remo indoor, de duas para oito escolas na área de Los Angeles, atendendo a mais de quatro mil alunas por ano.

No início de 2019, a RowLA decidiu apoiar Motta no pedido de green card ou de residência legal permanente nos Estados Unidos.

Na petição de 300 páginas, Greenberger descreveu Motta como um “ativo inestimável” para a RowLA. Rob Glidden, presidente da Associação de Remo de Long Beach, elogiou os métodos de treinamento, o aconselhamento nutricional e as qualidades pessoais de Motta na criação de um programa “excelente” para o desenvolvimento de remadoras.

“Dá para sentir a confiança que ele inspira nessas jovens”, escreveu Glidden, dizendo que o treinador havia possibilitado que muitas delas alcançassem um sucesso acadêmico e atlético “que, de outra forma, não seria possível”.

Mas o governo respondeu com um pedido de mais evidências para provar que Motta era “extraordinário”. Seu advogado, Richard Wilner, enviou 150 páginas adicionais de documentos. E recebeu mais uma negação em agosto.

Em uma carta de cinco páginas, a agência de Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos, responsável pela aprovação de autorizações de residência, descreveu os motivos pelos quais Motta não atendia aos critérios de alguém com “capacidade extraordinária”.

A decisão da agência se referiu a um manual de treinamento que Motta desenvolvera para a RowLA, reconhecendo que se tratava de “uma contribuição original”, mas afirmou que ele não havia oferecido “evidências objetivas de que essa inovação esteja sendo amplamente utilizada por outras pessoas da área, além de seu empregador e clientes”.

Motta também não provou que ele desempenhava “um papel fundamental ou de liderança para organizações ou estabelecimentos com distinta reputação”, disse o documento. E o que mais doeu: disse que as evidências não demonstravam que Motta havia recebido um “prêmio ou título importante ou internacionalmente reconhecido” para sua equipe.

Atleta e técnico em competições, Motta quer vencer, é claro. Mas talvez, disse ele, as vitórias não devam ser contadas apenas em medalhas.

Um porta-voz dos Serviços de Cidadania e Imigração disse que a agência não pode comentar casos individuais. “Esse visto exige um padrão extremamente alto de elegibilidade”, disse ele. Dos cerca de 1,1 milhão de green cards emitidos no ano fiscal de 2018, cerca de 39,5 mil pessoas os obtiveram na categoria de “capacidade extraordinária”, de acordo com o governo, um número que inclui cônjuges e filhos do requerente.

Wilner apelou da negação do green card, e as contas jurídicas só aumentam, totalizando mais de US $ 15 mil até o momento. A RowLA também solicitou uma prorrogação por mais três anos do seu visto de trabalhador convidado, que expirou oficialmente na sexta-feira.

Em vez de conceder a renovação, no início deste mês as autoridades de imigração solicitaram que Motta enviasse mais evidências de sua “capacidade extraordinária”. Ele pode permanecer no país e continuar trabalhando até que uma decisão final seja tomada em qualquer uma das solicitações. / Tradução de Renato Prelorentzou

Tudo o que sabemos sobre:
remo [esporte]imigração

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.