Rob Schumacher/USA Today
Rob Schumacher/USA Today

Ingrid Oliveira dá a volta por cima depois de nota 0 e críticas

Atleta dos saltos ornamentais teve uma superexposição no Pan

Nathalia Garcia, ENVIADA ESPECIAL A TORONTO, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2015 | 07h00

Até os Jogos Pan-Americanos de Toronto, Ingrid Oliveira era quase uma anônima no meio dos 590 atletas da delegação nacional. Mas o reconhecimento da brasileira dos saltos ornamentais não será o mesmo depois da competição. Ao lado de Giovanna Pedroso, ela conquistou a medalha de prata na disputa sincronizada da plataforma 10 metros. Além da satisfação pelo pódio, a conquista serviu para diminuir a polêmica em torno do rótulo de musa e da nota zero na prova individual.

O desafio dela agora é reverter essa exposição. Durante o Pan, ela ganhou cerca de 40 mil seguidores no Instagram, um retorno positivo para a modalidade. Incomodada com o desrespeito de muitos internautas sobre uma foto em que aparece de maiô, ela conta que tem deixado a conta pessoal visível apenas aos amigos à noite para poder filtrar os comentários e também tem selecionado o que publica nas redes sociais. Mas já adianta: não posará nua.

“Quando eu zerei o salto, várias pessoas falaram besteiras como: ‘Isso é culpa da internet, como a família dela deixa postar isso?’ As pessoas não sabem da minha história e ficam me julgando. Isso me deixou triste”, disse. A tristeza tem relação com a ausência da mãe, falecida há três anos, que “saberia o que fazer”, segundo ela.

Com o pai distante, em Cabo Frio (RJ), Ingrid recorre ao lado maternal da técnica Andreia da Silva. “Os atletas passam a maior parte do tempo com os técnicos, a gente viaja muito, já moramos na China. Eu não tenho filhos. Todos os atletas são meus filhos, e ela especialmente, por não ter mãe. Eu cuido dela realmente”, afirma a treinadora.

Ingrid também já morou com a irmã Erica, mas as brigas, que lhe renderam até uma cicatriz de um arranhão no braço, levaram a atleta a morar com uma colega dos saltos ornamentais e com a família dela. Foi seguindo os passos da irmã que ela entrou para o esporte. 

Aos nove anos, passou a praticar ginástica olímpica em São Gonçalo, no Rio. Como a sua evolução na ginástica não estava dentro do esperado, decidiu procurar outra modalidade. A irmã foi para os saltos ornamentais, influenciada pela beleza da performance de Juliana Veloso (que também está em Toronto), Ingrid ainda titubeou e até pensou em seguir para o nado sincronizado. 

A decisão veio logo depois da primeira visita ao Fluminense, quando viu uma técnica dando bronca nas atletas do nado e decidiu que não era ali que gostaria de ficar. Em 2008, disputou o Campeonato Brasileiro pela primeira vez e já foi campeã. Nesse momento, ela se deu conta de que tinha futuro na modalidade. “Na ginástica eu não tinha ido nem para o Brasileiro. Depois comecei a classificar para as competições no juvenil e percebi que era boa nisso”, relembra.

A questão financeira também foi uma dificuldade durante a trajetória de Ingrid Oliveira, que algumas vezes contou com a colaboração da técnica para pagar o almoço ou mesmo a passagem para pegar transporte público. Hoje, conta com auxílio do Bolsa Atleta, do governo federal, do seu clube, o Fluminense, do programa Solidariedade Olímpica, do Comitê Olímpico Internacional (COI), e do plano de saúde do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

O investimento tem dado resultados e a equipe está bastante satisfeita com o pódio no Pan. “São medalhistas olímpicas que estavam na prova, foi muito bom que elas (Ingrid e Giovanna) ficassem em segundo lugar. São elas que vamos enfrentar em 2016. Para a gente foi muito bom esse resultado”, avalia Andréia.

De acordo com a técnica, o desempenho da jovem de 19 anos serve como parâmetro para os Jogos Olímpicos do Rio e também para o Mundial de Esportes Aquáticos em Kazan, de 24 de julho a 9 de agosto. “O Pan e o Mundial são muito importantes para a gente, mas nosso trabalho está sendo voltado em função da Olimpíada’, afirma. Para o ano que vem, o objetivo será aumentar o nível de dificuldade da série e tornar Ingrid mais competitiva na briga por uma medalha olímpica.


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