Inimigo do meu inimigo

Alguém já disse que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Trata-se de uma maneira simplista e mesquinha de se enxergar a mundo, sendo que o bom mesmo é que não tenhamos inimigos, pois há coisas bem mais importantes na vida do que administrar invejas, ressentimentos e essas coisas que nos matam antes do tempo. No futebol, entretanto, o positivo conceito esportivo do "adversário" é muitas vezes confundido com a lamentável necessidade da construção de um "inimigo". Adversários precisam ser vencidos. Inimigos devem ser aniquilados. Essa visão rancorosa e estúpida só serviu para brutalizar as torcidas, antes tão festivas, afastando dos estádios as pessoas que sabem que amar um time não tem nada a ver com odiar outro. Essa, a meu ver, é a maior ameaça ao futuro do velho esporte bretão.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Por conta do conceito estúpido do inimigo que precisa ser varrido da face da terra, acompanhamos nos últimos dias intermináveis conversas - das mesas dos bares às redações dos jornais - sobre a impressão de que São Paulo e Palmeiras entregarão seus jogos contra os inimigos do inimigo Corinthians na reta final do Brasileiro, da mesma maneira que Vasco e Flamengo farão corpo mole para prejudicar o odiado Fluminense. Minha primeira reação ao ouvir essas teorias é dar de ombros. Eu tento ser racional e esquecer as teorias conspiratórias. Mas aí começo a recordar fatos e declarações de campeonatos passados e, principalmente, a ouvir o que os dirigentes dizem. Então minhas convicções caem por terra.

Não. Eu não sou daqueles que acham que haverá ordens diretas para um grupo de jogadores reunido no vestiário antes de uma partida: "Exijo a derrota para o inimigo do meu inimigo, que, portanto, é meu amigo!" Recuso-me a acreditar nisso. Mas sei que há muitas leis que, embora não escritas, nem por isso deixam de ser cumpridas. Por exemplo: não está na Constituição dos Estados Unidos que um ex-presidente, após passar um mandato fora do poder, não poderá voltar a se candidatar ao antigo cargo. No entanto, isso jamais aconteceu ou sequer foi cogitado. Bill Clinton não está impedido de se candidatar outra vez, mas sabe que há um acordo tácito entre os membros da classe política de que isso não é correto. Portanto, jamais pensará nisso. Pensar, até pode, mas só pensar. No universo irracional do ódio entre torcidas, ocorre algo parecido. Não haverá ordem para que os jogadores do São Paulo ou do Palmeiras percam para o Fluminense e impeçam o título corintiano. Mas os jogadores, intimamente, sabem que a torcida espera isso. E se fosse só a torcida, eu ainda entenderia. Infelizmente, muitos dirigentes raciocinam como torcedores, até para fazer média com eles.

Reparem na quantidade de oportunidades em que cartolas fizeram piadinhas, insinuações e até ameaças diretas aos clubes "inimigos". Reparem nas faixas que os torcedores levam aos estádios, pedindo que o título do rival seja impedido a qualquer custo. Agora joguem tudo isso no caldeirão meio enferrujado que é a cabeça de um jogador em final de temporada e frustrado por não estar disputando mais nada. Será mais que esse jogador dará aquele algo mais em campo para vencer o inimigo do inimigo? Ora, no ano passado, corintianos e gremistas não desejaram outra coisa além de perder para o Flamengo para atrapalhar, respectivamente, São Paulo e Inter. A torcida do Grêmio chegou a ir ao aeroporto ameaçar os atletas (muitos reservas) escalados para enfrentar os rubro-negros no Maracanã. Querem pior? O que dizer dos dirigentes palmeirenses que, devido à perda do mando de campo em seus jogos em São Paulo ameaçam hipocritamente - em nome das finanças do clube, claro... - levar o jogo contra o Fluminense para o Rio? É difícil, amigos, que os jogadores de São Paulo, Palmeiras, Flamengo e Vasco estejam imunes a esse tipo deplorável de pressão. Mas é justamente neles que eu deposito minhas esperanças de ver preservada a lisura da disputa. Porque, se depender da conduta de cartolas e torcidas organizadas, podemos esquecer.

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