Inocência

Eu não gosto da frase. Na verdade, procuro sempre negá-la, fugir dela enquanto for possível. Mas ela existe e está logo ali, espreitando por nós: "Chega um momento em que a vida começa a nos tirar mais coisas do que dá". É uma frase dura. Na infância, os ídolos vão surgindo por todos os lados e povoando a nossa imaginação. O primeiro ídolo de um menino é o pai. E então chegam os outros: jogadores de futebol, astronautas, grandes líderes, comediantes, astros do cinema, lutadores... A lista vai crescendo e a gente sabe que está ficando velho quando ela começa a diminuir. Quando, para cada novo ídolo que aparece, dois ou três dos antigos nos deixam para sempre. Meu pai morreu cedo - e foi o primeiro grande herói que perdi.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h05

Na noite da última quinta-feira eu disse adeus a outro herói. Seu nome de batismo era Mario Marino, um italiano da Calábria que a meninada que acompanhava as lutas de telecatch pela TV conhecia como Ted Boy Marino. O loirinho com pinta de playboy e físico de halterofilista era o grande astro de uma constelação de lutadores que enchia as nossas noites de sábado. Tudo começou com o Telecatch Montilla, criado na TV Excelsior e posteriormente transmitido pela TV Globo, no final dos anos 60.

Nos anos 70 e 80, os programas de luta livre tiveram várias encarnações, adotando diferentes nomes e horários conforme perambulavam pelos canais de TV, que na época eram poucos. Reis do Ringue, Telecatch Astros do Ringue e Gigantes do Ringue foram alguns desses nomes.

Entre os lutadores, além de Ted Boy, brilharam Aquiles - o Sanguinário, Tigre Paraguaio, Diabo Loiro, Verdugo, Mongol, La Múmia, King Kong (que tinha até um ajudante menorzinho, chamado Renê), Tatu, Rasputim, Mister Argentina, Ringo, Pé na Cova, Fumanchu e Fantomas. Eu certamente deixei de mencionar gente importante, mas, ao menos em minha memória afetiva, eram esses os gigantes. Recordo que passei noites em claro esperando o confronto do século: Fantomas versus King Kong. O gigantesco macaco, além de forte era absurdamente ágil. Meu grande ídolo Fantomas era lento e puxava de uma perna (que alguns atribuíam a um ferimento à bala). Ele não parecia capaz de dar conta da fera. A menos... Ah, a menos que ele conseguisse encaixar o seu estrangulamento no músculo do pescoço, golpe que o vulcano Spock - outro ídolo - fazia tão bem na série Jornada nas Estrelas. E foi exatamente o que aconteceu, segundos antes do gongo! Naquela noite eu fui dormir feliz, acreditando que o mundo era um lugar justo e virtuoso.

Só que o Brasil daquela época estava longe de ser assim. E eu, criança, nem percebia. Enquanto nos ringues de telecatch o couro comia de mentira, nos porões da ditadura a violência era real. Com o passar dos anos, a audiência do telecatch definhou. No Brasil moderno, da globalização e do MMA, parece não haver mais lugar para lutas de mentirinha - embora, felizmente, também não haja espaço para ditaduras.

A verdade é que eu sempre sentirei saudade daqueles tempos de Ted Boy Marino na TV. Porque, no fundo, a maior saudade que sentimos é a saudade da nossa própria inocência.

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